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Luiz Melodia morre aos 66 anos, em decorrência de câncer de medula

05 de Agosto de 2017

Morre o cantor carioca Luiz Melodia

'Pérola Negra' da MPB faleceu no sábado, aos 66; leia entrevista inédita

O cantor, compositor e músico carioca Luiz Carlos dos Santos, o Luiz Melodia, morreu na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer que atacou a medula óssea. Melodia morreu na madrugada de sábado, 4 de agosto, por volta das cinco horas da manhã. A informação foi confirmada ao colunista musical do G1 por Renato Piau, guitarrista que tocou com Melodia, após ligação para a família do artista. Melodia chegou a fazer um transplante de medula óssea e resistiu ao procedimento, mas não vinha respondendo bem à quimioterapia. O câncer voltou e o estado de saúde de Melodia se agravou bastante ontem. O artista estava internado no hospital Quinta D'Or.

Ele cantava que o nome dele era ébano na música que defendeu no festival Abertura, exibido pela TV Globo em 1975. Na certidão de nascimento, o nome era Luiz Carlos dos Santos. Mas o Brasil o conhecia mesmo pelo nome artístico de Luiz Melodia. Nascido em 7 de janeiro de 1951 no morro do Estácio, o bairro da cidade natal que ele cantou poeticamente em um dos sambas mais conhecidos do repertório gravado a partir da década de 1970, Luiz Melodia saiu de cena hoje em decorrência de complicações de um câncer de medula óssea conhecido cientificamente como mieloma múltiplo, mas fica eternamente em lugar de honra na história da música brasileira.

Tinha 66 anos de vida e 46 de carreira, se estabelecido como marco zero da trajetória profissional o lançamento da música Pérola negra em 1971 na voz de Gal Costa. Pérola negra era um dos destaques do show Fa-tal – Gal a todo vapor. No ano seguinte, Maria Bethânia lançou o samba Estácio, Holy, Estácio no álbum Drama (1972), abrindo caminho para que Melodia lançasse em 1973 pela gravadora Philips o primeiro álbum, Pérola negra, um dos clássicos da música brasileira de todos os tempos.

Pérola negra tinha samba, mas não era um disco de samba como o cantor tinha aprendido no morro em vivência musical que começou dentro de casa, quando Luiz ouvia o pai, o compositor Oswaldo Melodia, tocar. O álbum que projetou Melodia ergueu uma ponte tropicalista que ligava o samba do Estácio ao blues, passando pelo choro, pelo soul e pelo rock ao cair em suingue singular.

O romantismo ingênuo do cancioneiro da Jovem Guarda, influência assumida do cantor, ficaria mais evidente em álbuns posteriores com regravações de sucessos da turma comandada por Roberto Carlos em 1965, época em que Melodia ainda frequentava programas de calouros em busca do lugar ao sol que não havia conseguido com a formação de conjunto efêmeros, como Os Filhos do Sol e Os Instantâneos, para animar bailes da juventude pop dos anos 1960.

De lá para cá, a partir especificamente da edição do álbum Pérola negra, Melodia firmou nome na música brasileira como um dos compositores de assinatura pessoal, delineada em posteriores álbuns autorais como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1979), Nós (1980), Felino (1983), Claro (1987), Pintando o sete (1991), 14 quilates (1997), Retrato do artista quando coisa (2001) e o derradeiro Zerima (2014). Grande cantor de voz aveludada, Luiz Melodia foi bamba que foi muito além do samba do Estácio.

ENTREVISTA INÉDITA Á FOLHA

Uma das vozes mais singulares da MPB, o cantor e compositor carioca Luiz Melodia não resistiu às sessões de quimioterapia que fazia para combater um câncer na medula óssea e morreu na madrugada desta sexta (4), aos 66 anos, no hospital Quinta d'Or, no Rio. "É uma doença muito traiçoeira", afirmou a mulher do cantor, Jane Reis.

O autor de sucessos como "Pérola Negra" e "Estácio Holly Estácio" lutava havia meses contra um mieloma múltiplo e chegou a fazer um transplante de medula.

Cria do morro de São Carlos, no Estácio, Luiz Carlos dos Santos conviveu com a música desde seu nascimento, graças a seu pai, Oswaldo, que era violonista e compositor e já tinha o apelido que o filho herdaria, Melodia.

"Nesse contato, não só ele, mas com toda a vizinhança do morro, do largo do Estácio, eu fui absorvendo. O rádio também foi muito importante, família humilde, foi o primeiro meio de comunicação que entrou na minha casa", disse o cantor à Folha, em entrevista em 2013.

Ciente do preconceito que vitimava os sambistas à época, Oswaldo não estimulou a veia artística do filho –preferia que ele lhe imitasse a carreira de funcionário público.

Melodia, no entanto, começou a compor e a cantar ainda na adolescência, apresentando-se com sucesso em festas no morro e em concursos de calouros nas rádios.

Fez parte de duas bandas de garotos –Filhos do Sol e Os Instantâneos– que tocavam em bailes, mas, àquela altura, já alternava trabalhos como tipógrafo, vendedor e caixeiro.

"Eu tinha um sonho, como todo menino que tocava violão, mas não era uma coisa 'vou viver de música, vou gravar amanhã'. Eu não tinha a fissura de ser artista. Primeiro, ia estudar, tinha parado os estudos, estava no ginásio."

Sua sorte virou no início dos anos 1970, quando conheceu Rose, uma garota cuja família morava no Estácio e se mudou para o São Carlos.

Amiga do poeta e agitador cultural Waly Salomão (1943-2003), ela o levou ao morro e o apresentou a Melodia, que já tinha inúmeras composições prontas –entre elas, algumas que virariam clássicos, como "Pérola Negra" e "Farrapo Humano".

"O Waly ficou encantado com meu trabalho. Outras pessoas da zona sul vieram saber, vira e volta descia o morro para tocar em reuniões na casa da Suzana de Moraes [filha de Vinicius] ou do [Jards] Macalé."

Salomão apresentou o cantor à sua trupe tropicalista, incluindo o poeta e jornalista Torquato Neto (1944-1972), que usou sua coluna no jornal "Última Hora" para divulgar o "negro magrinho com composições interessantes, do morro do São Carlos".

Também sugeriu a Gal Costa que gravasse "Pérola Negra", o que a cantora fez com grande sucesso, jogando luz sobre o compositor, que passou a ser empresariado pelo poderoso Guilherme Araújo (1937-2007).

Foi com essas "costas quentes", como dizia, que Melodia lançou seu primeiro disco, em 1973, aos 22 anos. Com dez canções em 28 minutos, misturando choro samba, rock, blues, soul, e até foxtrote e forró, "Pérola Negra" tornou-se um clássico instantâneo.

A crítica da Folha à época definiu o cantor como "um dos fenômenos mais inquietantes da música popular brasileira, um estreante que foge a qualquer rotulação de consumo", e disse que ele era um "boêmio lírico, como Noel Rosa".

Pressionado pela gravadora (Phillips) a lançar logo um segundo LP, Melodia começou a se indispor –também porque os ex ecutivos lhe sugeriram um álbum só com sambas, para poder vendê-lo com o rótulo de "sambista".

"O lance fonográfico era barra. Se pudessem, eles te usavam de maneira que você não mostrava sua arte. Queriam só números, e eu não estava viajando naquela onda." Mesmo iniciante, Melodia marcou posição –e pagou por isso. "Começou uma coisa maluca de os caras não entenderem o que eu queria e começarem a me ver como difícil. Fiquei anos sem gravar."

Seu segundo disco, "Maravilhas Contemporâneas" (1976), saiu pela Som Livre e ajudou a consolidar seu nome, com sucessos como "Juventude Transviada" –que entrou na trilha sonora da novela "Pecado Capital", da Globo– e "Congênito".

Ao longo dos anos 1980 e 1990, passaria a compor menos e lançaria uma série de discos de pouca repercussão –seu grande sucesso no período foi a regravação "Codinome Beija-Flor", de Cazuza, para a trilha da novela "O Dono do Mundo" (1991).

REDESCOBERTA

Na virada do século, um bem-sucedido projeto acústico ao lado do violonista Renato Piau, seu amigo e parceiro de longa data, fez com que suas canções fossem revalorizadas e seu nome, descoberto por uma nova geração.

Seguiria fazendo shows e gravando discos regularmente –lançou seu último álbum de estúdio ("Zerima") em 2014. Até o fim, manteria a característica elegância no palco e a voz poderosa, levemente rouca e anasalada, com que interpretava sucessos seus e alheios.

Melodia deixa a mulher, Jane, com quem foi casado por quatro décadas e teve seu segundo filho, Mahal. Também deixa Iran, do primeiro casamento.

Daniel Marenco (G1) e Marco Aurélio Canônico
Folha/Rio

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Fabiano
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