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Pesquisadores apoiados pela Fapeal, como o físico Francisco Fidelis, revelam outros talentos por trás dos jalecos e da rotina de sala de aula

07 de Agosto de 2017

Pesquisadores apoiados pela Fapeal revelam outros talentos

Por trás de jalecos e da sala de aula, eles se revelam como artistas e profissionais informais

Progredir na carreira de pesquisador, em Alagoas e no mundo, traz desafios e responsabilidades. A esta missão de examinar a realidade e estar sempre se atualizando, soma-se a carga daqueles que também se ocupam do trabalho de formar e preparar os novos pesquisadores. Talvez muitos ainda os desconheçam, pois se criou um estereótipo de que eles estão tímidos em seus laboratórios, se debruçando dias e noites em trabalhos que, se até hoje não transformaram vidas, de certo algum dia transformarão.

Porém, em julho, quando se comemorou a pesquisa científica e o pesquisador brasileiro, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) investigou talentos, na busca de saber quem são os pesquisadores por trás dos dados, gráficos, artigos científicos e todas as aulas preparadas semanalmente. Com quatro personagens (músico, fotógrafo, atleta e DJ), representando um espaço tão diverso, a reportagem descobriu como essas facetas se misturam.

ACÚSTICA DA FÍSICA

Desde 2004, o doutor Francisco Fidelis atua da graduação à pós-graduação no Instituto de Física da Universidade Federal de Alagoas (IF Ufal) e tem como especialidade a física do estado sólido, uma área que estuda as propriedades elétricas, em condições térmicas.

Um de seus maiores prazeres é dedicar-se à docência, mas não o único. Fidelis relata que aprendeu a tocar violão aos 16 anos, sendo autodidata e tendo um vizinho que o incentivava. Mas ele se encantava mesmo com os chorinhos que o pai sempre escutava com seus vinis na vitrola de casa.

Ingressando no mestrado, a vida acadêmica não o distanciava em nada deste amor. O pesquisador alimentava a curiosidade por música, inclusive na Física, através da acústica dos instrumentos e dos sons. Com metas traçadas, seguia o seu trajeto de pesquisador, porém sem nunca esquecer o lado artístico.

Mas na época de sua formação, relembra, ser músico nem sempre foi visto com bons olhos. As pessoas acreditavam que esta prática o afastaria dos seus estudos e da possibilidade de se tornar um pesquisador sério, e esta foi uma transição que ele teve de enfrentar com muita determinação.

Dono de composições próprias, o físico diz que toca os chorinhos todos os dias, pelo menos uma hora, de forma saudosa, seja no violão de sete cordas, no violão tenor ou no bandolim, instrumento pelo qual possui uma enorme dedicação e lembra-se das peripécias que fez para conseguir seu primeiro exemplar:

“Eu ainda era estudante quando fui participar de um congresso no Rio de Janeiro, mas estava motivado mesmo era para encontrar um bandolim porque na época não existia este instrumento em Maceió. Chegando lá eu comprei, mas restou pouco dinheiro para que eu passasse a semana, o que para mim não importava. Eu alimentava uma paixão enorme para aprender a tocá-lo”, alega.

Ele comenta inclusive sobre a quantidade de músicos que têm habilidades e uma inclinação à música, não só pela curiosidade, mas por ter um ouvido sensível à construção dos sons, provando que existe sim uma ligação com os aspectos físicos: “Na minha vida eu não consigo separar a Física da música. Eu me vi em muitos momentos terminando trabalhos científicos cheios de problemas e pegando o violão, tocando um pouco. Os dois estiveram muito presentes em minha realidade”, explica o professor.

Fidelis tem uma relação antiga com a Fapeal. Já foi beneficiado com três projetos de pesquisa e, atualmente, foi aprovado no edital de apoio a Pesquisas dos Programas de Pós-Graduação (PPG).

NOVOS ÂNGULOS

Acompanhando os mistérios da ciência, encontra-se um campo de encantamento e paixão similares: a fotografia. Pesquisador das Ciências Biológicas, Willams Fagner Soares ainda está concluindo sua graduação, mas há quatro anos já desenvolve trabalhos no Museu de História Natural da Ufal, onde ele pode analisar especificamente a herpetologia, uma área da Biologia que estuda os anfíbios e répteis. Estes animais nem sempre estiveram nas graças do público e povo alagoano, porém, através do esforço empregado por Soares, estes bichinhos têm conquistado a afeição de todos.

Hoje, o pesquisador se empenha em catalogar os 13 mil itens existentes na coleção do museu, que contém um acervo diverso, incluindo ovos, animais adultos e larvas de girinos. Iniciaram-se assim as suas experiências fazendo fotos de registro. Mas a tarefa não é meramente técnica: a rotina do estudante é sempre dotada de muita criatividade. Ele cita que toda a parte emocionante ocorre quando ele sai com os grupos para a mata em busca dos animais.

Ele fotografa bichos de hábitos noturnos, anfíbios, répteis e invertebrados. Estas espécies têm horários bem específicos, o que as torna mais difíceis de serem encontradas, com o agravante de ocuparem áreas de preservação nas cidades de Murici e Rio Largo.

Além de contribuir na produção dos registros, o MHN Ufal também o apoia divulgando as composições: o museu abre regularmente durante a semana e nos primeiros fins de semana de cada mês. Aí é quando as fotos dos bichinhos são expostas, com textos informativos.

“A intenção é aproximar as pessoas deste universo e trazer o máximo de conhecimento às novas gerações”, explica o pesquisador. As fotos são tão bem elaboradas que configuram aos animais um ar simpático e interessante. Pela forma como são retratados, os diversos sapos, rãs, cobras estão ganhando o gosto do pessoal e inúmero likes nas redes sociais, virando a nova tendência do museu.

“Quando o trabalho é exposto todos ficam admirados. O público não imagina que existem tais espécies aqui em Alagoas, muitos não têm noção da variedade de animais”, complementa o futuro biólogo. Os animais são vistos em todo país em concursos e oficinas, em formatos de banners. O sucesso refletiu na produção de um catálogo impresso para o grande público do museu, que reunirá 70 espécies de anfíbios e 150 de répteis, todos de Alagoas.

Soares já foi beneficiado com uma bolsa do Programa de Iniciação Científica (Pibic) da Fapeal.

MATEMÁTICA

Estudar Matemática pode ser uma tarefa mais inspiradora e menos complicada? Se você respondeu não, deve ser porque nunca esteve em uma das aulas do professor Krerley Oliveira, afinal não é todo dia que os alunos têm a oportunidade de assistir a uma aula proferida por um triatleta premiado.

Oliveira ensina uma parte da Matemática que mistura a teoria das probabilidades com sistemas dinâmicos para analisar sistemas complexos e tem doutorado pelo Instituto Nacional de Matemática Aplicada (Impa). Se para alguns essa mistura pode parecer complexa, o professor analisa que o seu lado atleta e sua rotina o auxiliam e o mantém focado nas responsabilidades de pesquisa e formação.

E estar atuando neste âmbito tem sido recompensador: Oliveira foi convocado para ser o técnico da seleção brasileira na Olimpíada Internacional de Matemática, composta por seis estudantes de Ensino Médio.

“A Olimpíada reúne os melhores alunos e professores de 112 países, sendo uma competição bastante dura e que exige preparação intensa”, explica o triatleta. O saldo foi de duas medalhas de prata e uma de bronze e duas menções honrosas para o Brasil, que ficou em 37ª posição global.

O docente enfatiza que mesmo se dividido entre demandas pessoais e acadêmicas, ensinar é o que há mais de recompensador em suas funções, que ele mesmo define como missão de vida. Explica que educar é o ofício que escolheu para si e do qual mais gosta, inclusive mais do que os trabalhos nas salas de pesquisa.

“Creio que modificar positivamente a vida de outras pessoas é algo que não tem preço e uma grande recompensa na vida do professor”, frisa o estudioso.

Porém, existe um lado no qual o matemático é igualmente apaixonado, só que, traduzido por ele de outra forma.

Desde menino, Oliveira já praticava esportes como judô, natação e futebol, o que foi progredindo para exercícios de alto impacto. Há 20 anos, ele tem se exercitado regularmente realizando corridas, natação e ciclismo de forma integrada. No ano de 2017, o conhecido Triathlon foi praticado por ele de forma ininterrupta todos os dias. Este novo amor surgiu quando ele ainda era estudante e decidiu ir ao IMPA de bicicleta, em meados de 1997, no início do seu mestrado.

Atualmente a programação do acadêmico exige uma superpreparação, mas como atleta, ele já está condicionado à disciplina de esportes e aulas na universidade. Ele acorda as 3h50 e começa os treinos às 5h diariamente, incluindo sábados e domingos. “O Triathlon e Ironman exigem disciplina, dedicação, esforço, perseverança, planejamento. Eu sempre gostei de desafios e fazê-los significa mais um”.

O pesquisador conta que já participou de inúmeras competições, mas que não se lembra ao todo quantas foram após tantos anos de prática. Mas cita que completou oito Ironmans, cada um envolvendo 4km de natação,180km de ciclismo e 42km de corrida. O atleta também foi convocado três vezes para representar o Brasil em mundiais de longa distância na França, Suécia e Canadá, no grupo correspondente a sua faixa etária.

O professor também se aplica em estudar o esporte, porque acredita que os matemáticos podem auxiliar em seu desenvolvimento. “Hoje, há times de futebol de ponta, como o Barcelona, que contratam matemáticos para evitar lesões e otimizar a temporada de seus jogadores. O software que uso de treinamento é pura matemática aplicada. Há muito espaço para misturar as duas coisas e muita coisa nova para se descobrir e criar”, alega o pesquisador.

O acadêmico possui uma relação antiga com a Fapeal: teve o seu primeiro projeto financiado pelo órgão em 2003, assim que concluiu seu mestrado. Ele lembra que alguns de seus alunos que receberam sua orientação foram financiados por projetos da Fapeal e que a instituição auxilia a evolução destes pesquisadores em potencial.

COMUNICAÇÃO

Na área da comunicação reinventar-se é uma regra indispensável para acompanhar as novas tecnologias e processos linguísticos . Esta habilidade e um caráter versátil são traços marcantes e presentes nas aulas do doutor em comunicação e semiótica Ronaldo Bispo.

O professor ensina e dialoga diariamente com estudantes de jornalismo e relações públicas da Ufal, unindo o poder comunicacional a temas reflexivos, como a estética na comunicação e a inserção de aparatos tecnológicos nesta produção. Os resultados são discussões instigantes, que não permanecem somente nas turmas, mas evoluem para os laboratórios de ciências humanas, onde o docente coordena um grupo de pesquisa em estéticas da comunicação.

Bispo estuda e ensina as áreas da estética que envolvem as vertentes empírica, evolutiva, a arte e tecnologia, coevolução das formas e preferências estéticas. Ele ainda analisa a reconfiguração das cadeias produtivas midiáticas e desenvolve, atualmente, um projeto voltado às redes sociais digitais, à criação e fruição estéticas, argumentando sobre novas formas de entretenimento no ciberespaço.

Professor há 25 anos, pôde acompanhar algumas mudanças com a criação de novos meios e softwares entrando no universo comunicacional. O pesquisador enxerga esta convergência com naturalidade, dedicando-se a

estudos constantes: “Se há uma área que não pára de se atualizar é da comunicação, das novas mídias, das tecnologias de informação. Manter-se atualizado é indispensável, ficar atento aos lançamentos bibliográficos, aos artigos acadêmicos e de matérias jornalísticas, mas ouvir e aprender com os alunos também é indispensável”, ressalta o docente.

Ele explica que emprega como método desafiar os alunos a produzirem materiais de forma natural, se utilizando das tecnologias de que dispõem hoje, insistindo sempre na importância da pesquisa e redação acadêmicas, pois a sua verdadeira realização ocorre quando ele está ensinando, contribuindo para a formação de alunos e vendo suas turmas conquistando um espaço próprio e meritório.

E toda esta sensibilidade para a arte e estética tem outras referências: igualmente entusiasmado, o professor assume um novo personagem na vida noturna, quando opera pick ups e playlists nas festas. IJ Abutre, como

gosta de ser chamado, significa Ideas jockey, um jogador de ideias, outro ângulo do pesquisador que canaliza a compreensão estética em estilo musical e energia compartilhada.

“Há um prazer intrínseco na escuta musical. Como professor de estética falo muito deste prazer e experiência, da intensidade e da beleza que as artes em geral e a música em particular podem proporcionar”, explica o pesquisador.

O acervo do IJ Abutre é grande, vai da MPB à música eletrônica, com temas diversos como: "Indie Pop Rock Electronic Dancing", "Música Lenta, Malemolência, Romance, Sensualidade", "Ambient Indie Rock, Folk and Electronics", "Hip Hop, Soul, Swing, Jazz Dancing".

Discotecando, ele costumava se apresentar na finada Jungle, passou pelo também extinto Banga bar, tocou no El Lugar Resto Pub e no Milk Beach Pub. Realizou cerca de dez festas no período de um ano em meio, as saudosas "Vá indo que eu não Vou” e a "Polifônica". Os alunos ficam surpresos quando descobrem esta atividade, mas se identificam com um professor que participa de experiências tão próximas à realidade vivida por eles.

O comunicólogo já contou com o apoio da Fapeal, assim que concluiu seu doutorado com a bolsa de recém-doutor, e definiu a experiência como “uma excelente oportunidade”.

Pesquisadores apoiados pela Fapeal, como o físico Francisco Fidelis, revelam outros talentos por trás dos jalecos e da rotina de sala de aula

Tácila Cabral
Agência Alagoas

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Fabiano
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