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Foto da capa do livro mostra Collor ao lado do tenente PM Dário Cesar, um integrante da brigada

10 de Setembro de 2018

AL pagou segurança para Collor chegar ao Planalto

Ex-presidente contou com 34 PMs na sua guarda particular, sendo 5 oficiais, 7 sargentos e 22 cabos e soldados

Não foi só com o dinheiro dos usineiros, arrecadado após um acordo espúrio e nocivo à já combalida economia alagoana, entre 1987 e 1988, que o candidato ao governo Fernando Collor de Mello (PTC) chegou à Presidência da República, nas eleições de 1989. O Estado bancou também sua guarda pretoriana, disfarçada de segurança particular, durante toda a campanha, de Norte a Sul do País. Tudo por conta do contribuinte alagoano.

A denúncia da “Brigada de Collor” foi feita à época pelo jornalista Denis Agra (1950/1992) – considerado ícone de uma categoria inteira para além das fronteiras da sua terra natal; talentoso, respeitado e combativo. Foi com a reportagem sobre a “Brigada de Collor” que ele ganhou o primeiro Prêmio Salgema de Jornalismo, em 1990. Publicada na revista “Última Palavra, em setembro de 1989, a matéria começa com Dênis ligando para o hotel onde os militares da PM de Alagoas estavam hospedados.

– Bom dia, é do Hotel Bristol.

– Aqui é de Maceió. Gostaria de falar com cabo Monteiro.

– Ele é da turma do Collor?

– É sim.

– Momentinho que eu vou transferir a ligação.

– Alô!

– Quem fala, por favor?

– É o soldado Eduardo. O que deseja?

– Sou da Revista “Última Palavra”. Estou fazendo uma matéria sobre a expectativa de vocês na campanha de Collor.

– Olha, a gente segue o homem quando viaja...

– Quantos soldados estão hospedados aí?

– Aqui são 22.

– O salário compensa?

– Mais ou menos, mas isso pode me complicar.

– (....)

– Faz o seguinte, ligue para o tenente Monteiro no Comitê.

Foi com este diálogo telefônico, mantido com um integrante da milícia de Collor, que Denis Agra abriu sua reportagem premiada. Exatamente assim, diferente de todas as matérias inscritas no prêmio. Já no reforço da reportagem ele destaca: “Alagoas paga a segurança campanha do ex-governador: são 5 oficiais, 7 sargentos e 22 cabos e soldados”.

Collor poderia ter recorrido à segurança oferecida pela Policia Federal, mas preferiu usar a PM de Alagoas na sua guarda pessoal. Ex-governador de Alagoas, já fora do mandato, candidato à presidência pelo nanico PRN ele pregava a moralidade pública, o combate aos marajás, mas fazia o tipo "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". Apontava os erros dos outros, mas se esquecia dos seus.

Quase 30 anos depois, Collor tenta de novo voltar ao governo de Alagoas exatamente com o mesmo discurso: combate ao desperdício e erros administrativos. Critica o governo Renan Filho (MDB) e diz que só ele tem coragem de consertar o que está errado. Chegando ao governo, caso tenha êxito nas urnas ou na fraude, seria certo usar a PM de novo em sua próxima campanha eleitoral?

Afinal, Fernando Collor nunca foi do batente, sempre teve uma vida de rico, mas às custas dos outros. Seus gastos sempre foram bancados ou pelas empresas da família ou pelo poder público. Nas Gazetas, o “burro de carga” sempre foi o Pedro Collor (1952/994), que o delatou antes de morrer de câncer e “matar” a mãe Dona Leda (1916/1995) de vergonha. Certa vez, logo após às denúncias de corrupção que levariam à renúncia de Collor, ela disse que não era fácil ter “um filho ladrão e outro delator”.

Até os gastos de Collor com jatinhos, na campanha presidencial, foram bancados pelos cofres públicos; estavam incluídos no famigerado “acordo dos usineiros”, celebrado por ele governador, com duração de dez anos. Por sinal, datilografado por seu entãotesoureiro, Paulo Cesar Farias – o PC. Aquele morto ao lado da namorada, em junho de 1996. Enquanto Collor curtia o mar do Caribe com Rosane Collor, sua mulher à época.

“BRIGADA DE COLLOR”

Montar uma equipe de segurança reforçada, para se defender dos eleitores enfurecidos com seu falso discurso moralista na campanha presidencial, seria normal, em se tratando de um candidato provocador como Fernando Collor, se os seguranças não fossem da PM e não estivessem recebendo pelo Estado. Foi o que chamou atenção dos leitores o autor da reportagem premiada:

– Tudo não passaria de um fato normal na vida de um cidadão que almeja o cargo mais importante na vida pública do País, se todos os homens do presidenciável do PRN não fossem integrantes da Policia Miliar de Alagoas e não possuíssem uma classificação bem conhecida pelos alagoanos: a “Brigada de Collor”.

Ainda de acordo com a reportagem do jornalista Denis Agra, a desfaçatez era tamanha que só se explica pela certeza da impunidade. O batalhão à serviço de Collor era comandado pelo coronel Otávio Albuquerque, da assessoria militar do governo do Estado. Foi ele quem escolheu a dedo os militares que seguiriam Collor pelo País. A informação vazou de dentro do Batalhão de Guardas do Palácio dos Martírios, onde os militares da “Brigada de Collor” deveriam prestar serviço, mas estavam à disposição do ex-governador.

– A informação vazou porque os militares que não faziam parte desse “regimento” ganham bem menos. Vazou por inveja –, comentou Denis Agra, à época. “Além da remuneração paga pelo contribuinte alagoano, os integrantes da brigada recebiam do comitê do PRN, em Brasília. Daí a inveja de elementos da corporação”, acrescentou o jornalista.

Segundo ele, entre os militares que faziam parte do “para-choque colorido” estava o então tenente PM Dário César Barros Correia, que aparece na foto de capa do livro ‘do jornalista Sebastião Nery, ao lado de Collor, abrindo o caminho entre eleitores, na base da cotovelada e do “deixa que eu chuto”. O livro, “A História da Vitória – Porque Collor Ganhou”, narra dos bastidores da campanha e a relação tumultuada do presidenciável com a imprensa.

Em Brasília, os membros da “Brigada de Collor” ficavam sempre no Hotel Bristol – um ‘três estrelas’ bem conservado. Sob a responsabilidade do Comitê do PRN no Distrito Federal, os militares recebiam ordem direta do coronel Albuquerque, homem de estrema confiança de Collor. De lá, os militares acompanhavam o candidato pelo Brasil afora.

O cabo Reinaldo, um dos seguranças condenados pelo assassinato de PC Farias e Suzana Marcolino, também fazia parte da “Brigada de Collor”, em 1989. Depois foi trabalhar para os Farias.

Outro PM que trabalhava na segurança de Collor, na casa da Dinda, era o sargento Marcos Antônio de Almeida Silva, assassinado a tiros, junto com um colega de farda, na avenida Siqueira Campos, no Trapiche da Barra, em Maceió.

O assassinato do sargento teve repercussão nacional, depois que a Gazeta de Alagoas estampou a seguinte manchete: “Sogro de Pedro Collor acusado da morte de policiais”. Na matéria, o usineiro João Lyra, pai de Thereza, casada com Pedro Collor, foi acusado se ter mandado matar Marco Antônio porque “ficou sabendo” que o sargento andava espalhando que tivera um caso amoroso com sua ex-mulher, Solange Lyra.

Os militares da “Brigada de Collor” prestavam serviço na Casa da Dinda, no Comitê Central do PRN e nas viagens do presidenciável pelo País, a bordo dos aviões dos irmãos usineiros João e Carlos Lyra. Um desses aviões, à disposição do tesoureiro PC Farias, ficaria famoso, conhecido como “Morcego Negro”, pilotado pelo capitão Jorge Bandeira, um dos indicados no Caso PC.

REVOADA GERAL

Na matéria premiada, Denis Agra chama atenção para outro detalhe: “Além dos militares à disposição do PRN, Collor contou também com assessores conhecidos na alta roda do funcionalismo público alagoano. De autoridades a modestos servidores, a revoada para Brasília inaugurava uma nova casta de funcionários, talvez mais caracterizada na figura do ‘califa’ do que os milhares de filhos do arrocho salarial patrocinado nos últimos dois anos de governo”.

O jornalista Denis Agra – que no governo de Ronaldo Lessa virou nome de Praça no Conjunto Santo Eduardo, em Maceió – concluiu sua matéria dizendo que, num levantamento rápido junto ao Comitê Central do PRN, constatou que pelo menos 50 servidores do Estado estavam trabalhando na campanha presidencial de Collor, às custas do erário. Todos liberados pelo governador Moacir Andrade, a exemplo do assessor especial Cláudio Vieira, que recebia pelo Estado e prestava serviço ao ex-presidente.

“No estouro da verba secreta de Collor, Cláudio Vieira marcou presença sacando recursos com a própria rubrica”, relembra Dênis Agra, na reportagem que conquistou o primeiro troféu do Prêmio Salgema. Além do seu ex-secretário particular na presidência da República, Collor contavam ainda, na linha de frente da sua campanha, com o advogado Abílio Dantas, o professor Luitgard Moura de Figueiredo, o primo Euclides Mello e o ex-deputado Cleto Falcão (1952/2011).

Quando a “Brigada de Collor” foi denunciada, o governador de Alagoas era Moacir Andrade, um fiel escudeiro do ex-presidente. Tão próximo ao candidato do PRN que ficou sabendo do confisco da poupança, antes do anuncio oficial do “assalto colorido”; tirando proveito dessa informação, ao sacar todo dinheiro que tinha depositado no antigo Produban - o banco do Estado de Alagoas que os “amigos de Collor” ajudaram a falir, no final dos anos 90.

Numa pesquisa rápida nos jornais de Alagoas da época, encontramos várias matérias sobre a “Brigada de Collor”. O então comandante da PM de Alagoas, coronel Fernando Valadão, confirmou a presença de 34 militares à serviço da campanha de Collor, trabalhando como seguranças do presidenciável. No entanto, Valadão fez questão de tirar o dele da reta, ao frisar que o “regimento” estava sob o comando do Gabinete Militar, de responsabilidade direta do governador Moacir Andrade.

Ricardo Rodrigues
Repórter do Almanaque Alagoas

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Fabiano
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