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Ricardo Stuckert
Somos milhões de Lulas, dizem os manifestantes pela sua libertação

08 de Abril de 2019

Lula completa um ano na prisão em Curitiba

Lula em carta ao povo brasileiro: “O medo deles não é do Lula. Eles têm medo é dos milhões de Lulas”

Em carta ao povo brasileiro neste domingo (7), quando completa um ano como preso político da Operação Lava Jato, condenado pelo atual ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, Sergio Moro, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva se apresenta como injustiçado e põe a culpa nas elites do Pais.

O ex-presidente redigiu uma mensagem de otimismo dizendo que “juntos, vamos reverter cada retrocesso, cada passo atrás na dura caminhada rumo ao Brasil que sonhamos e que provamos ser possível construir”. Segundo ele, sua prisão e o impedimento de subir pela terceira vez a rampa do Palácio do Planalto revelaram o medo daqueles que hoje realizam o desmonte do Estado brasileiro.

Um ano preso numa sala da sede da PF em Curitiba, Lula sofreu com a morte de parentes, mas recebeu também muitas manifestações de solidariedade e fé. O ex-presidente foi condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em 2018

Ele governou o Brasil entre 2003 e 2010. Depois de dois mandatos consecutivos, elegeu sua ex-ministra Dilma Rousseff como sua sucessora e conquistou para ele um segundo mandato na Presidência. Neste segundo mandato, Dilma foi vítima de uma conspiração politica e do golpe parlamentar que cassou seu cargo, dentro de um processo de impeachment no Congresso Nacional.

RELEMBRANDO A PRISÃO

No dia 7 de abril de 2018, Luiz Inácio Lula da Silva aterrissou de helicóptero no prédio da Superintendência Regional da Polícia Federal em Curitiba, onde começou a cumprir uma pena de 12 anos de prisão e passou os últimos 364 dias entre livros, cartas e a convicção de que não vai trocar "sua dignidade pela liberdade".

Com um terno escuro e o olhar cansado, o ex-presidente operário que governou o Brasil entre 2003 e 2010 entrou há um ano na prisão depois de passar 48 horas entrincheirado junto com a militância no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo.

De uma cela especial de 15 metros quadrados, adaptada especialmente para ele, o ex-líder sindical, de 73 anos, viu a Justiça vetar sua candidatura para as eleições presidenciais de outubro de 2018 e viu Jair Bolsonaro, enquanto a Justiça continuava pisando em seus calcanhares com uma nova condenação por corrupção.

Ali também recebeu duas notícias muito dolorosas: no final de janeiro morreu em decorrência de um câncer seu irmão mais velho, Genival Inácio da Silva, e no último dia 1º de março a morte do seu neto Arthur, de apenas sete anos, por uma infecção generalizada.

Apesar do cansaço emocional, Lula, cujas penas somam 25 anos de prisão, conserva a esperança de provar sua inocência para honrar a memória do seu neto e da sua falecida esposa, Marisa Letícia, segundo afirmaram pessoas de seu círculo mais próximo.

Os dias de Lula na prisão

O político está bem mentalmente, segundo dizem, e sua voz, sempre afônica, melhorou nos últimos meses. O ex-presidente também perdeu alguns quilos.

O ex-torneiro mecânico mantém uma estrita rotina. Acorda por volta das 6h e duas horas depois sai da sua cela para tomar café da manhã — quase sempre um pão com manteiga ou presunto.

Lula também faz exercícios quase todos os dias no interior da sua cela, situada no quarto andar do prédio da PF de Curitiba, onde conta com uma esteira para correr.

Das quatro paredes de sua cela especial, à qual tem direito por ter sido presidente, acompanha o cenário político do país, que sofreu uma reviravolta radical após a chegada ao poder de Bolsonaro, seu rival antes que a Justiça eleitoral vetasse sua candidatura por ter sido condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A política também costuma centrar as conversas das quintas-feiras, quando, além da família, pode receber amigos e aliados.

O edifício da Polícia Federal inaugurado durante seu governo, em 2007, se transformou no quartel eleitoral do PT durante 2018 e dali Lula guiou os passos de Fernando Haddad, que lhe substituiu como candidato um mês antes dos pleitos.

Para enfrentar a solidão da prisão, Lula se focou na leitura e, nos primeiros 57 dias de reclusão, leu 21 livros.

Até semana passada, o ex-sindicalista tinha em suas mãos um sobre petróleo, mas o que se destaca entre seus preferidos nos últimos tempos é "O Alufá Rufino" (2010), que trata sobre o tráfico, a escravidão e a liberdade no Atlântico Negro entre 1822 e 1853.

O pragmático líder do PT também dedica parte do seu tempo a ler as cartas que recebe de seus apoiadores, amigos e correligionários, algumas das quais responde com o próprio punho.

Na sua cela também tem um televisor, mas só sintoniza canais abertos. Por isso, uma das coisas lamentadas por Lula, torcedor do Corinthians, é não poder acompanhar os jogos da Liga dos Campeões, de acordo com outro de seus amigos.

A televisão também tem uma entrada USB e de vez em quando o ex-presidente vê filmes, como Uma Noite de 12 anos, que narra o cativeiro entre 1973 e 1985 do ex-presidente uruguaio José "Pepe" Mujica — amigo pessoal de Lula —, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro, que eram membros do Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros.

A primeira coisa que fará quando conseguir sua liberdade, segundo Souza, será abraçar as pessoas que estão esperando por ele às portas do prédio da PF para agradecer-lhes por sua "resistência".

"As pessoas estão resistindo para defender sua liberdade. Isso lhe emociona muito", ressaltou.

CARTA NA ÍNTEGRA

Meus amigos e minhas amigas, incansáveis companheiras e companheiros de luta.

Há exatamente um ano, estou preso pelo crime de dedicar uma vida inteira à construção de um Brasil mais justo, desenvolvido e soberano. Impediram minha candidatura à Presidência para que eu não subisse outra vez a rampa do Palácio do Planalto, empurrado pelos braços de cada um e cada uma de vocês, para que juntos revertêssemos o desmonte do Estado brasileiro promovido pelos meus algozes.

Há exatamente um ano, estou isolado na cela de uma prisão em Curitiba. Jamais apresentaram uma única prova contra mim. Sou preso político, exilado dentro do meu próprio país. Separado do povo brasileiro, de meus familiares e dos amigos mais queridos. Proibido de dar entrevista, impedido de falar e de ser ouvido.

Pensavam que a imposição desse longo silêncio calaria para sempre a minha voz. Pois não calaram, nem calarão. Porque somos milhões de vozes.

Há exatamente um ano, sou acalentado pelo “Bom dia” e pelo “Boa noite, presidente Lula”, entoados a plenos corações não apenas pelos bravos integrantes dessa que é uma das mais longas vigílias de toda a história, mas também pela solidariedade que chega de todos os cantos do Brasil e até de outros povos do mundo.

Há exatamente um ano, meus adversários buscam um motivo para comemorar, e não encontram. Temos sofrido repetidos revezes desde o golpe contra a presidenta Dilma, é verdade. Mas nossas derrotas nos fortalecem para a luta, ao passo que suas vitórias não dão a eles um minuto sequer de paz.

Eles estão cada vez mais ricos, mas a fortuna obtida à custa do sofrimento de milhões de brasileiros não lhes traz felicidade. Eles estão cada vez mais raivosos e infelizes, envenenados pelo próprio ódio que destilam.

Na despedida do meu neto Arthur, o Brasil inteiro foi surpreendido pelo imenso e desnecessário aparato repressivo montado contra mim. Viaturas, helicópteros, militares portando armamento pesado. Tudo para impedir que eu até mesmo acenasse para aquelas pessoas solidárias à dor de um avô.

Na mesma hora compreendi que o medo deles não é do Lula. Eles têm medo é dos milhões de Lulas. Porque eles sabem do que somos capazes quando nos unimos para transformar este país.

Estamos vivos e fortes. Juntos, vamos reverter cada retrocesso, cada passo atrás na dura caminhada rumo ao Brasil que sonhamos e que provamos ser possível construir. Venceremos.

Um abraço, e até a vitória!

Luiz Inácio Lula da Silva

Redação do AA com EFE

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Fabiano
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