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A Ilha é um dos livros de poesias lançado pelo crítico e poeta Carlos Moliterno

01 de Novembro de 2019

Imprensa Oficial lança obra completa de Carlos Moliterno

Homenagem ao autor, falecido em 1998, será realizada neste sábado (2) a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas, em Maceió

A Imprensa Oficial Graciliano Ramos lança novas edições da obra completa do crítico e poeta alagoano Carlos Moliterno. Brilhante e sucinto, o legado literário do escritor, que morreu em 1998, é formado por dois livros de poesias – Desencontro e A Ilha – e um ensaio literário antológico intitulado Notas Sobre Poesia Moderna em Alagoas, que, juntos, celebram a arte poética e o amor à literatura.

A apresentação das novas edições será realizada na noite de estreia da programação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos e de seus parceiros na 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, neste sábado (2/11/19), a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas. O evento contará com a presença de parentes e amigos de Carlos Moliterno, que prestarão homenagem à memória do escritor.

Além do lançamento de Carlos Moliterno, a gráfica e editora do Governo do Estado também lançará, na mesma ocasião, o romance O Anjo Americano, do jornalista Luiz Gutemberg, e sua nova coleção de clássicos não ficcionais chamada Raízes das Alagoas, realizada em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e da Editora da Universidade Estadual de Alagoas (Eduneal). O evento gratuito e aberto ao público, contará com a apresentação da banda Divina Supernova.

Homenagem ao autor será realizada neste sábado (2) a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas (Divulgação)

“Ao receber a informação de que a editora da Imprensa Oficial Graciliano Ramos estaria reeditando três obras de Carlos Moliterno, senti a satisfação de quem recebe uma premiação ou a realização de uma grande conquista”, afirma a crítica e escritora Edilma Acioli Bomfim, professora e imortal da Academia Alagoana de Letras. Segundo ela, durante o período em que lecionou a disciplina Literatura Alagoana, na Universidade Federal de Alagoas, ela vivia fazendo cópias dos livros do autor por não conseguir mais exemplares. “Meus velhos livros ficaram riscados, com anotações e páginas soltas. Para o meu perdão só tenho uma justificativa: tentei fazê-los conhecidos, lidos e apreciados”, argumenta.

Obras poéticas

Considerada a obra-prima de Carlos Moliterno, A Ilha reúne 59 sonetos, alguns escritos em linguagem metapoética, que apontam para uma simbiose entre criador e criatura. O eu-lírico dos versos se confunde com o eu-poético e AIlha se confunde com a própria poesia. Descrita sob diversas perspectivas, a Ilha assume vários significados metafóricos a cada poema, em um exercício literário inteligente e refinado, refletindo sobre sentimentos como solidão, nostalgia, contemplação, inquietação e impermanência.

Homenagem ao autor será realizada neste sábado (2) a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas (Divulgação)

Lançado em 1953, Desencontro, livro de estreia da carreira literária de Moliterno, é uma obra poética eclética que reúne sonetos em estilo parnasiano e poemas escritos em versos livres que revelam a versatilidade criativa do autor e seu domínio sobre a linguagem. Contudo, independentemente da forma escolhida pelo poeta, Desencontro mantém, em sua essência, uma forte temática existencial-introspectiva que versa sobre sentimentos íntimos, como desejo, angústia, saudade, amor, rejeição e tristeza, que levam o leitor a refletir sobre a finitude da vida, a passagem do tempo e sobre suas próprias ilusões perdidas.

“É na variedade de formas poéticas empregadas em Desencontro que leitores e críticos podem encontrar o exímio sonetista que era Carlos Moliterno, antes mesmo de A Ilha. Mas, além disso, está presente nesta obra um poeta moderno, no frescor pleno da poesia, que chegou aos leitores na década de 1950 e agora, após longa espera, vem novamente ao encontro do público, em aguardada edição, nesta obra fundamental da poesia moderna em Alagoas”, diz o professor Victor Mata Verçosa, estudioso da obra de Carlos Moliterno.

Já o ensaio Notas sobre poesia moderna em Alagoas é uma obra fundamental para os pesquisadores da arte literária produzida no estado. Neste livro, o crítico Carlos Moliterno remonta aos primórdios do movimento modernista no Nordeste, e mais precisamente em terras alagoanas, que repercutiu anos depois da Semana de Arte Moderna de 1922 e com características autênticas, regionais. Como partícipe da efervescência criativa local da época, Moliterno relembra neste ensaio o cenário de renovação estética iniciado em Alagoas, no final dos anos 20, por Jorge de Lima, reunindo dados biográficos e seleção de poesias de escritores antológicos como Aurélio Buarque de Holanda, Lêdo Ivo, Jorge Cooper, Aloísio Branco, Anilda Leão,entre outros.

Homenagem ao autor será realizada neste sábado (2) a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas (Divulgação)

ENTREVISTA

Carlos Moliterno nasceu em Maceió, no dia 15 de março de 1912, e morreu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos, em consequência de uma leucemia. Ele foi poeta, jornalista, crítico literário, diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, presidente da Academia Alagoana de Letras, por seis sucessivos mandatos, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Filho de imigrantes italianos, ele é também autor da letra do Hino de Maceió.

Para desvendar um pouco mais a alma de Carlos Moliterno, conversamos com Carlos Alberto Moliterno, filho do escritor com a poeta Anilda Leão, e discutimos a importância de sua obra e sobre o escritor em sua intimidade familiar. Vindo de uma linhagem de grandes poetas, Carlos Alberto Moliterno é arquiteto e escritor. Ele é autor do livro Pequenos poemas para serem ditos, publicados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, em 2013.

A Imprensa Oficial Graciliano Ramos está lançando, numa tacada só, a obra completa do seu pai Carlos Moliterno. Dois destes três livros, com lançamento previsto na programação da editora, durante a programação da 9ª Bienal Internacional de Livros de Alagoas, estavam há mais 50 anos fora do catálogo das editoras alagoanas: Notas sobre poesia moderna em Alagoas e Desencontro. Como o senhor vê esses lançamentos?

Carlos Alberto Moliterno - Considero a reedição de Notas sobre poesia moderna em Alagoas, de 1965, uma oportunidade para que as novas gerações tomem contato com a produção de poetas alagoanos influenciados, de uma forma ou de outra, pelos movimentos de renovação modernista, hoje completamente esquecidos. É de notar que, se com alguns o tempo foi implacável, muitos ainda surpreendem com uma produção absolutamente atual. Ao lado disso, precede a antologia um ensaio didático sobre os movimentos de renovação que agitaram o Brasil, a Região Nordeste e Alagoas, na primeira metade do século passado, de muita utilidade para uma visão panorâmica daqueles embates em torno da literatura e da arte.

A partir das pesquisas que realizamos, durante o processo de edição dos livros de Carlos Moliterno, a impressão que nos foi deixada é a de que ele foi um líder, um grande fomentador do ambiente literário e cultural de Alagoas de sua época, mentor de diversas gerações escritores e escritoras. Essa impressão está equivocada?

Carlos Alberto Moliterno - Sua observação é correta. Mesmo antes de assumir a direção das páginas literárias dos principais jornais da terra, nos anos de 1940/1950, Moliterno já tinha esse perfil agregador em torno das mais diversas manifestações artísticas. Muito jovem, apreciador do cinema, fundou um cineclube com amigos. Chegou a emprestar o piano de sua residência para as sessões de cinema mudo no Cine Lux, na Ponta Grossa, onde residiu até o fim do primeiro casamento. Posteriormente, nos jornais e revistas que editou, e nas entidades que dirigiu ou de que participou, esteve sempre aberto aos que o procuravam, dando grande incentivo aos novos talentos da terra.

Homenagem ao autor será realizada neste sábado (2) a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas (Divulgação)

E justamente por ter se vocacionado para exercer o papel de fomentador cultural, ocupando diversos cargos públicos importantes, outra impressão que temos é que essa talvez tenha sido a principal razão para que a obra de Moliterno ter sido tão resumida, embora tenha demonstrado grande talento para a Literatura...

Carlos Alberto Moliterno - Moliterno era sobretudo um homem de jornal. Foi ao jornalismo que dedicou a maior parte de seus esforços. Inclusive na Imprensa Oficial. Mas foram os cargos que assumiu na gestão da cultura que possibilitaram o exercício pleno desse papel de fomentador cultural. Além, é claro, da participação, sempre ativa, em entidades como a Academia Alagoana de Letras, o Instituto Histórico, a Sociedade de Cultura Artística, entre outras. Era um homem que trabalhava de domingo a domingo e isso, sem dúvida, lhe deixava pouco tempo para se dedicar a sua própria obra.

Observando as fotos de Carlos Moliterno, percebemos que ele era um homem muito elegante e bonito, bem cuidado mesmo em sua maturidade. Esse apuro com a imagem se deve ao fato de ter exercido a profissão de alfaiate na época de sua juventude?

Carlos Alberto Moliterno - O certo é que o ofício de alfaiate teve influência no seu cuidado com o vestir. Sabia o que era um terno bem cortado, de costura perfeita e bom caimento, num tempo em que esses trajes eram feitos sob medida. Porém, sua questão me lembra agora uma frase que ouvi do jornalista e escritor Luiz Gutemberg, o que talvez responda a sua pergunta: “Ninguém, nem o Humphrey Bogart, segurava o cigarro entre os dedos com a elegância do Moliterno.”

Quais são as principais lembranças que você guarda do seu pai? Como era a relação de vocês? Ele era um pai linha dura? Ou era um pai amoroso? Ele te incentivava a escrever também?

Carlos Alberto Moliterno - Um homem que estava sempre a trabalhar. Seja em casa ou na rua. Inclusive nas noites, em que se ausentava para ir a eventos e reuniões. Quando em casa, estava no gabinete, debruçado sobre alguma tarefa. Nos finais de semana, encontrava os amigos no sítio de Théo Brandão, na Jatiúca, ou na casa de Osvaldo Vilela, ali mesmo no Farol, aonde íamos todos. Não foi um pai muito presente. Na adolescência, tivemos alguns conflitos, mas não era linha dura. Em casa não havia essa coisa de senhor e senhora, todos se tratavam por você. Devo a ele o gosto da leitura e da escrita. Nesse aspecto, lembro de meu pai exibindo, com algum entusiasmo, uma redação feita por mim, então nas séries finais do ensino fundamental, para o Gonzaga Leão. Mas sempre tive pudor de mostrar-lhe os meus poemas.

Seus pais escreviam juntos? Eles exerciam algum tipo de influência literária um sobre o outro?

Carlos Alberto Moliterno - Não. Suas rotinas, e motivações, eram bastante diversas. Apesar de opostos em temperamento, tinham, no entanto, muito em comum nos gostos. E nas ideias sobre arte e literatura. Divergiam mesmo na política, ele mais conservador – embora não reacionário –, ela se declarando socialista. Ele mais voltado para as questões literárias e acadêmicas, ela se dedicando às questões sociais e à luta pelos direitos da mulher.

Filho de Carlos Moliterno, com a poeta Anilda Leão, sobrinho de Gonzaga Leão, seria quase impossível você escapar da Literatura. De que maneira essa linhagem de escritores te influenciou?

Carlos Alberto Moliterno - Na verdade, me considero mais um leitor do que um escritor, na acepção corrente da palavra. De onde vem o amor à literatura se não da leitura? Tive a sorte de ter, desde pequeno, uma grande biblioteca à disposição, que podia explorar como quisesse, e conselhos sobre o que ler. Na adolescência, a escrita veio mais como uma maneira de falar para mim mesmo, uma espécie de diário em prosa e verso, que mantive por anos. Depois joguei tudo fora. Ou quase. Da fase posterior, já mais maduro, enfeixei uns trinta poemas em volume publicado pela Graciliano Ramos por meio de edital. Tenho poemas e contos inéditos, que não sei se serão publicados algum dia. E trabalho agora no que consegui salvar do diário, a ser publicado no próximo ano por uma cooperativa de escritores criada por inspiração do poeta Rosalvo Acioli. Quanto a essa questão de linhagem, devo dizer que os exemplos citados me inspiraram muito mais por sua atitude perante a vida, do que propriamente no aspecto literário.

A crítica especializada considera que A Ilha é a obra-prima de seu pai. O senhor concorda?

Carlos Alberto Moliterno - Sim. Apesar de não ser crítico, e de tampouco ter feito estudos na área da literatura, compreendo que A Ilha representa a culminância da sua obra lírica. Afinal, mais de vinte e cinco anos separam os dois volumes. É Théo Brandão quem diz, comparando A Ilha a Desencontro, seu primeiro livro de poemas, que “nas elegias, a realidade é mais intensa, o fato histórico é mais numeroso e mais vivo, enquanto nos sonetos da Ilha o trabalho é quase inteiramente de recriação.” O mesmo crítico fala em transe e alucinação, com o poeta “voltado todo para a sua visão poética.” Acho que depois dessa visão, e desse transe, o poeta descansou a lira, satisfeito com a obra realizada. Ao que escreveu depois, não deu muita importância.

Carlos Moliterno traçou um panorama muito rico sobre o movimento modernista em Alagoas, valiosamente registrado em Notas sobre poesia moderna em Alagoas. E embora tenha sido um notório entusiasta deste movimento inovador, ele foi um exímio escritor de sonetos. Como se explica essa aparente contradição?

Carlos Alberto Moliterno - Se você observar os poetas listados na antologia que complementa o Notas sobre poesia moderna em Alagoas, verá que muitos fazem uso do soneto, revalorizado pela chamada Geração de 1940. Geração que se contrapôs aos exageros do modernismo sem, no entanto, deixar de incorporar avanços do movimento de 1922. É o que diz o autor em seu ensaio. Na verdade, a adesão ao soneto tem atravessado os séculos. E o uso que deles faz o poeta de A Ilha está de acordo com a época em que foram concebidos, são absolutamente modernos. Por isso não há contradição.

Serviço

Imprensa Oficial Graciliano Ramos na 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas

Lançamento da obra completa de Carlos Moliterno

Local: Arquivo Público de Alagoas – Rua Sá e Albuquerque, s/n, em frente à administração do Porto de Maceió.

Data: 2/11/19, a partir das 19h

Evento gratuito e aberto ao público

Preços dos livros: A Ilha – R$ 25

Desencontro – R$ 25

Notas sobre poesia moderna em Alagoas – R$ 25

Mais informações: Patrycia Monteiro: 82 98883-7609

Editora | Imprensa Oficial Graciliano Ramos

82 3315 8303

editoracepal@gmail.com

www.imprensaoficialal.com.br

Texto de Patrycia Monteiro

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Fabiano
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