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Há 50 anos, renúncia de Jânio Quadro foi manchete nacional

25 de Agosto de 2011

Há 50 anos, renúncia de Jânio jogou país na crise

Nesta quinta-feira (25), a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República completa 50 anos. Para a cientista política Vera Chaia, ele foi um “mago" do marketing político. Já o ex-ministro e embaixador Rubens Ricupero, na época da renúncia funcionário do Itamaraty em Brasília, diz que o jeito de se fazer política hoje em dia começou com Jânio. Para ele, ex-presidente era um “lobo solitário”. Veja como foi a trajetória deste político que marcou a história brasileira.

"Ele era um lobo solitário", diz ex- ministro sobre JânioO ex-ministro e embaixador Rubens Ricupero, na época funcionário do Itamaraty, diz que o presidente era um solitário, sem base política para apoiá-lo.

Jânio Quadros foi eleito presidente com 48% dos votos (na época não havia segundo turno), mas renunciou após sete meses de governo, a 25 de agosto de 1961.

Jogou o país numa grave crise política, que só foi encerrada, duas semanas depois, com a posse do vice-presidente João Goulart, mas com a mudança do regime político, do presidencialismo para o parlamentarismo.

Veja galeria de fotos sobre a trajetória de Jânio Quadros

Jânio teve uma carreira meteórica: em sete anos passou de prefeito de São Paulo (1953) a governador (1954) e presidente eleito (1960).

O janismo foi um fenômeno político paulista, produto da transição de uma sociedade de massas para uma sociedade de classes. Nos anos 1940 e 1950, a grande migração nordestina e mineira alterou profundamente o Estado, tal como a expansão da industrialização e a urbanização.

LEIA A SEGUIR TEXTO DE NELSON VALENTE, PUBLICADO NO SITE METAMORFOSES:

JÂNIO OU GÊNIO?

Por Nelson Valente

Eleito em 1953 para prefeito da capital paulista há um momento em que Jânio Quadros ameaça renunciar. Governador de São Paulo (1955), contrariado com as críticas e com a oposição que vinha sofrendo na Assembleia Legislativa, no cúmulo de sua irritação, chamou o seu secretário particular, Afrânio de Oliveira, e lhe entregou uma mensagem para ser divulgada à noite, pelos jornais, noticiando sua renúncia. De posse da mensagem, Afrânio de Oliveira reteve-a em seu poder, não dando ciência a ninguém. No dia seguinte, estranhando a falta de repercussão da notícia, indaga o governador do seu auxiliar onde se encontrava a mensagem:- "Comigo, no bolso."- "Rasgue-a", disse Jânio. Estava superada a crise da "renúncia".

A renúncia de Jânio Quadros foi premeditada: ligando um fato a outro, as circunstâncias permitem acreditar que tinha o objetivo de controlar todo o governo e livrar-se de Carlos Lacerda e da influência do Congresso. A revista "Mundo Ilustrado" em seu número de 12 de agosto, treze dias antes da renúncia, publicava a reportagem: "Renúncia, arma secreta de Jânio". Prova cabal de que a renúncia não foi um gesto individual de um presidente destemperado: a carta em que a decisão seria tornada pública estava desde 20 de agosto em poder de Horta. Ele mostrou a um grupo de conspiradores que se reuniu na casa de um industrial em Bertioga (SP). Entre os participantes do encontro estava o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade (PSD-SP), e o ministro da Guerra, Odílio Denys.

O episódio Guevara“Che” Guevara foi convidado verbalmente a visitar o Brasil pelo presidente Jânio Quadros, pelo chefe da delegação e ministro da Economia Clemente Mariani (consogro de Lacerda). No dia 19/8/61, o presidente Jânio Quadros condecorou o líder revolucionário cubano com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, numa cerimônia improvisada no Palácio do Planalto. Ele ignorava que iria receber uma condecoração, mas também o caráter oficial do encontro. Não tinha como retribuir a condecoração, como é usual, e o discurso de Jânio foi breve. Preferiu Guevara retribuir com discurso igualmente breve, aceitando a distinção como entregue ao governo revolucionário e ao povo cubano, sem significado pessoal.

Em 19 de agosto, Guevara é recebido por Jânio Quadros em Brasília, o qual aproveita a ocasião para atender um pedido do núncio apostólico, monsenhor Lombardi e do Papa João XXIII, para interferir na libertação de 20 padres espanhóis e do bispo de Havana, presos em Cuba. No caso dos padres, Guevara concorda com a libertação, avisando, entretanto que, dentro das regras cubanas, eles serão em seguida expulsos para a Espanha. Jânio manifesta sua opinião de que a expulsão é um assunto interno de Cuba, que só a ela cabe resolver. O Brasil defende a libertação, e com esse ato considera o pedido satisfeito.

Mania de renúnciaUma onda de descontentamento varreu o país e Jânio Quadros começou a descarregar sua fúria sobre o ministro da Fazenda, Clemente Mariani que, como sabemos, tinha relações de parentesco com o jornalista e dono de jornal Carlos Lacerda. Aliás, era o próprio genro do ministro, o jovem Sérgio Lacerda quem estava dirigindo a Tribuna de Imprensa, e lhe regulava o tom dos ataques. Essa mudança na direção do jornal se deu porque Carlos Lacerda, eleito governador no novo Estado da Guanabara, teve de se afastar do cargo. Começava-se a formar a teia na qual Jânio ia se embaraçando, cada vez mais.

Sobre rumores de crise ministerial, face a demissão do ministro Clemente Mariani, da Fazenda, Jânio Quadros dirigiu um bilhete ao seu secretário particular José Aparecido de Oliveira:

"Aparecido: Leio num jornal que o Ministério está em crise...Veja se localiza para mim. Leio, também, que recebi, da Fazenda, um bilhete enérgico.Desminta. O Ministro é educado bastante, para não o escrever ao Presidente.E o Presidente não é educado bastante, para recebê-lo...Assinado – Jânio Quadros - 09/08/1961"

A justificativa apresentada pelo Presidente Jânio Quadros sobre a sua renúncia à presidência da República tem uma característica interessantíssima: a de colecionar renúncias como chantagem. Em 1960, em entrevista exclusiva, após o episódio da renúncia, quando era candidato a candidato à Presidência da República, pela UDN, Jânio disse: - "Quando renunciei, tinha o firme propósito de voltar à vida privada, isto é, à advocacia, ao magistério e à família" (renunciou por duas vezes em 1960).

Em 25 de agosto de 1961, o estilo da carta renúncia. Diz o texto: "Retorno agora ao meu trabalho de advogado e de professor." O que planejava Jânio Quadros? Ele planejava, com a renúncia divulgada em Brasília, aterrissar no aeroporto de Congonhas, onde o Viscount presidencial seria cercado pelas "massas", o que seria um pretexto para voltar ao poder "nos braços do povo". Jânio Quadros não queria sob nenhuma hipótese fechar o Congresso Nacional, pois, poderia fazê-lo com um cabo e três soldados. Ele pretendia o respaldo político e parlamentar mais amplo para suas reformas; Jânio Quadros nunca perdeu a chance de amaldiçoar os partidos políticos e o Congresso, e de tanto fazê-lo, acreditava piamente no que dizia.

Jânio sempre demonstrou desprezo pelos partidos e pelo Poder Legislativo. Ao longo de sua carreira trocou de legenda sucessivamente. Renunciando a todos e no mesmo estilo de carta que imprimiu sua marca pessoal. O estilo agressivo e independente de Jânio reverberava como algo bem mais poderoso que uma vassoura: era a alavanca, o bisturi gigantesco e destemido de que o País precisava.- "A renúncia foi mais um gesto teatral, a que ele (Jânio Quadros) se habituara. Contava, certamente, repetir a cena que fizera quando da sua renúncia à sua candidatura à Presidência da República, aliás, por duas vezes e no mesmo estilo. Jânio era o golpe.", afirmou o marechal Teixeira Lott.

Ato teatralApós a renúncia de Jânio Quadros, com a responsabilidade de ser um dos três detentores do Poder Civil durante umas poucas horas, o marechal Odílio Denys, Ministro da Guerra, recebeu a visita do Presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, para lhe dar ciência do ato da renúncia voluntária do presidente da República. Foi inquirido sobre a causa ou causas do estranho ato de Jânio Quadros.

A resposta do marechal Denys ao deputado Ranieri Mazzilli foi a seguinte:- "Temperamento."

Jânio Quadros tinha a obsessão da renúncia e foi um ato teatral. Oscar Pedroso Horta traiu Jânio Quadros, quando não rasgou ou pelo menos não retardou a entrega do documento da renúncia. Horta deveria ouvir os ministros, os governadores amigos e os líderes da campanha janista. Que "razões próprias" deve ter tido o ministro da Justiça, Pedroso Horta, para o açodamento da entrega do documento da renúncia?.

A bagagem de Jânio Quadros já estava pronta desde a véspera da saída do poder, antes de saber da denúncia de Carlos Lacerda. Ao participar dos festejos do 25 de agosto, Dia do Soldado, em Brasília, o presidente estava com uma fisionomia alegre, na manhã do dia crucial. Semblante de quem antegozava uma grande travessura. Este depoimento é concludente, quando confessa Jânio Quadros ao seu ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, que esteve diante de um Congresso que não atendia, que não obedecia. Horta tentou várias vezes uma aproximação entre o presidente indócil e o indócil Congresso Nacional.

Afinal de contas, Jânio quando Governador "renunciou" pelos mesmos motivos. A renúncia foi uma espécie de chantagem com o Congresso, com os militares e com as forças políticas com quem ele estava em choque.

Assunto proibidoDe qualquer forma, à maneira de um canapé mal-requentado servido antes de lauta refeição, recomendo atenção a fundamentais e significativas revelações de José Dutra Ferreira no livro “Um Mordomo em Brasília”.

Poderão mudar a interpretação da História, como por exemplo o anúncio que Jânio Quadros fez à sua mãe, no palácio da Alvorada, em plena mesa de almoço, que iria renunciar à presidência da República. Porque a comunicação aconteceu no dia 13 de agosto de 1961, quando até agora se tem como certa a versão de que o singular presidente decidiu-se deixar o poder apenas a 24 daquele mês, um dia antes do tresloucado gesto que intentava a decretação de uma ditadura (artigo de Carlos Chagas, coluna Claudio Humberto).

Mil depoimentos dão conta até hoje de que Carlos Lacerda foi convidado por Jânio Quadros para hospedar-se no palácio da Alvorada e, depois de instalar-se, teve sua mala deixada na guarita e um recado para que fosse hospedar-se num hotel. Dutra contesta, relatando que ao saber que Lacerda estava no portão, o presidente teve um acesso de raiva, gritando “Não! Não e não!”.

Na intimidade, Jânio não suportava conversar sobre a renúncia, assunto explosivo se provocado em público ou em ambiente com muitas pessoas. Um dia, aos próprios amigos, que insistiam em fazê-lo confessar algo mais do que a explicação que dava, respondeu com surpreendente calma:

- “A verdade sobre a renúncia vocês já sabem. Se quiserem ingressar na ficção, conversem com o Vladimir Toledo Piza, que tem mais de dezoito versões. Escolham uma delas.”

* Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor. Autor de 12 livros sobre o ex-presidente Jânio Quadros e 52 em outras áreas do conhecimento.

MARCO ANTONIO VILLA
Especial para FOLHA/UOL

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Fabiano
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