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Nelson Rodrigues autor de frases antológicas como toda unanimidade é burra

30 de Agosto de 2011

Rei do drama perto dos 100 anos

Centenário do dramaturgo Nelson Rodrigues, no ano que vem, prevê traduções e encenações de todas as suas 17 peças

Era 1954, e assim o poeta Manuel Bandeira tentava provocar a reflexão dos leitores acerca da obra daquele que se tornaria o mais celebrado dramaturgo brasileiro de todos os tempos: Nelson Rodrigues, que em 23 de agosto de 2012 completaria 100 anos de vida, se vivo estivesse. O Centenário da Morte do Rei do Drama foi tema de matéria, no último final de semana, do Jornal O Globo, que o Almanaque Alagoas republica a seguir.

Com o lançamento de uma página na internet e o ensaio aberto, em São Paulo, de uma montagem de O Beijo no Asfalto, começaram na terça-feira passada as comemorações do centenário de Nelson Rodrigues, que acontece em 23 de agosto de 2012.

Vinte anos após O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras), a biografia de Ruy Castro que impulsionou uma redescoberta maciça do nome de Nelson, a obra do maior dramaturgo brasileiro poderá ganhar novo salto, chegando a outros países e inspirando grande quantidade de espetáculos.

Esse é o sonho, mas ainda falta combinar melhor com a realidade. Um problema é o pouco tempo até os 100 anos. O projeto dos atores Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas de tradução para o espanhol das 17 peças de Nelson acabou de ser encampado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) – que também cuidará das versões para o inglês –, mas ainda não começou.

A dupla revisará uma parte das traduções, a cargo do cubano Efraín Rodríguez Santana, e o diretor Marco Antonio Braz revisará outra, feita pelo espanhol José Sanchis Sinisterra. “Viajamos durante um ano por 15 países da América Latina. Nos workshops com cenas do Nelson, a empatia era enorme, mas não há publicação das peças em espanhol, é um absurdo”, afirma Borghi, que também tenta viabilizar com Seixas um Prêmio Internacional voltado a patrocinar encenações de Nelson em países de língua espanhola.

Rei do Melodrama

Para Braz, é um "escândalo" Nelson não ser conhecido nesses países, pois "ele reina sobre o melodrama", escola predominante na ficção hispânica. O diretor carioca do grupo paulista Círculo dos Canastrões, que já fez mais de dez espetáculos baseados no autor, tem mais três para este ano: "O beijo no asfalto" em setembro, "Os sete gatinhos" (ambos com Borghi no elenco) e "Valsa nº 6" em seguida. E, em 2012, deve dirigir Marco Ricca em "Boca de Ouro", além de organizar o evento "Quem ainda tem medo de Nelson Rodrigues?", com leituras dramáticas e palestras.

Também foi Braz quem propôs a Nelson Rodrigues Filho reunir versões de "Vestido de noiva" no Teatro Municipal do Rio em dezembro de 2012 - a peça que inaugurou o teatro moderno brasileiro estreou no mesmo Municipal em 28 de dezembro de 1943. Mas ele critica a opção de Nelsinho de cobrar 10% do que as produções conseguem de patrocínio para montar peças do pai. O procedimento padrão no meio é pagar um adiantamento e 10% da bilheteria.

“Nelson é, hoje, o autor mais caro do mundo”, afirma Braz. “Se alguém consegue um patrocínio de R$ 600 mil para montar uma peça grande como ‘Anjo Negro’ ou ‘Senhora dos Afogados’, R$ 60 mil vão para os herdeiros. E é dinheiro público. Descartei montar ‘Bonitinha, mas Ordinária’ porque seriam mais de 20 pessoas, ficaria caro e inviável.

Nelsinho diz não cogitar fazer uma espécie de anistia a fim de facilitar montagens no ano do centenário, mas ressalta que os 10% não são "um dado irreversível".

“Isso começou porque vi temporadas de peças do velho a R$ 1, gratuitas. Os produtores faziam isso porque tinham subsídio. Os diretores ganhavam R$ 30 mil, R$ 50 mil, e o autor, R$ 30, R$ 50, pois só tinha os 10% da bilheteria”, explica.

Seis filhos

Nelson Rodrigues teve seis filhos: Joffre (morto em 2010) e Nelsinho, com Elza; Maria Lúcia, Sonia e Paulo César, com Yolanda; e Daniela ("a menina sem estrela", assim chamada por ele por ter nascido com graves problemas), com Lúcia. Hoje, os herdeiros, que já tiveram brigas sérias, até conseguem se reunir, mas há divergências. Maria Lúcia e Sonia, que tinham concordado com os 10%, estão revendo sua posição.

“Eu aceitei por inércia, mas tendo hoje a achar que os 10% do patrocínio dificultam demais a vida da classe teatral, e isso é ruim para a obra”, diz Sonia.

Nelsinho e Braz, respectivamente no Rio e em São Paulo, planejam ver todas as 17 peças encenadas em 2012. Antonio Grassi, presidente da Funarte, diz que cederá os teatros da fundação, além de lançar em janeiro um edital de apoio às produções. Ao menos no Rio, as apresentações seriam em agosto, dentro de um evento batizado por ‘Nelsinho como A Gosto de Nelson’.

Shakespeare

“O nome de Nelson Rodrigues precisa significar para o Brasil o que Shakespeare significa para a Inglaterra. Ele é tão intenso, uma obra tão sem limites, que tudo pode ser feito. E o centenário é para todos os que queiram fazê-lo”, diz Nelsinho, que tem dois projetos próprios nas comemorações: uma versão de "Vestido de noiva" que dirigirá para o Municipal, com os cenários originais de Santa Rosa refeitos; e o livro "Nelson Rodrigues - Pai e filho", sobre a relação entre eles, em especial na ditadura militar (o pai conservador agoniado com o filho esquerdista preso por quase oito anos).

A jornalista e pedagoga Maria Lúcia Rodrigues Muller, que teve de deixar o país durante a ditadura, vem tocando de Cuiabá, onde mora hoje, uma exposição sobre Nelson que será inaugurada em maio no Itaú Cultural. Quer destacar, por exemplo, como Pernambuco ficou marcado no pai, mesmo ele tendo saído de lá aos 4 anos.

Já a escritora e jornalista Sonia Rodrigues está usando a estrutura de seu projeto Almanaque da Rede, de games educativos, para custear o site www.nelsonrodrigues.com.br, que tem como destaque o tópico ‘Nelson por Ele Mesmo’, com trechos de entrevistas e crônicas de Nelson, a maioria inédita em livro.

“Há mais de mil crônicas que não foram publicadas em livro. Existem milhões de pessoas que acessam a internet e mal conhecem Nelson”, destaca.

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Os herdeiros estão avaliando a proposta da Nova Fronteira para renovar o contrato de publicação das peças. A editora promete novos lançamentos da prosa para 2012.

No cinema, só está prevista a estreia no primeiro semestre da versão de "Bonitinha, mas ordinária", dirigida por Moacyr Góes, com João Miguel e Leandra Leal.

“Procurei tirar qualquer ranço folclórico associado a Nelson. É um filme passado nos dias de hoje, e com menos apelo erótico do que os já feitos”, diz o diretor.

A pré-estreia será na quadra da Unidos do Viradouro, que apresentará no Grupo de Acesso ‘A’ o enredo "A vida como ela é: Bonitinha, mas ordinária", sobre Nelson.

NELSON RODRIGUES, MEU PAI

Por Maria Lúcua Eodrigues Muller*

A lembrança que tenho de Nelson Rodrigues, meu pai, é de uma pessoa muito doce, muito gentil e muito severa. Suas frases antológicas, ditas com a maior seriedade, eram cheias de humor. “Mesmo que você role no chão de rir, eu lhe digo: não posso.” A frase preferida quando a filha mais velha insistia num pedido que lhe parecia impossível atender. Eu ficava indignada, não entendia a recusa dele, pois percebia que era muito amada, mas terminava me rendendo aos seus argumentos.

Desde pequenos eu e meus irmãos não morávamos com meu pai, nos encontrávamos com ele frequentemente na redação do Jornal dos Sports ou na redação de O Globo. Dali saíamos para um café na esquina da Tenente Possolo ou para almoçar. Para mim era uma aventura. Adorava o cheiro de tinta de jornal. Não sei quem era mais tímido, se ele ou eu. Ele, às vezes confidenciava suas lutas, a constante falta de dinheiro, correndo de uma redação para outra para obter o sustento dele e de todos os que ele ajudava. Trabalhava em 3 ou 4 jornais, ao mesmo tempo. Não se fazia de vítima. Só falava de suas aflições. Eu ficava com a impressão que ele ajudava todo mundo, até o vira-lata da esquina. Sempre tinha alguém esperando por ele, com o jeito de quem conta uma história triste. E ele, eu via, se compadecia, dava disfarçadamente um dinheiro.

Por volta dos 12 anos pedi que me indicasse livros para ler. Ele, com a maior seriedade, me deu uma lista de autores, entre eles Dostoiévski, ("Recordações da casa dos mortos") e Molière. E depois pedia minha opinião, de um jeito tão natural, que fiquei convencida que era normal uma menina de doze anos conversar sobre Dostoiévski. Agora, eu queria ser uma intelectual.

Compenetrada, numa fila de ônibus, me esforçando para entender Molière, descobri as críticas ferozes que ele sofria. Um homem se aproxima e indaga como uma menina tão jovem consegue ler um autor tão difícil? Respondo que foi meu pai, que é escritor, quem me recomendou o livro. O homem não se contém e quer saber o nome do meu pai. Eu digo orgulhosa, Nelson Rodrigues! Vocês não têm ideia das coisas que ele disse do escritor. Fiquei traumatizada pelo resto da vida. Raramente digo que sou filha do meu pai. Não escondo, porém não saio dizendo por aí. Naquele tempo, eu não tinha argumentos para dizer o que sei e digo hoje.

Nelson Rodrigues, com seu gênio, sua sensibilidade, e seu extremo espírito compassivo, era capaz de perceber exatamente o tamanho da nudez do Rei, dos súditos e dos transeuntes. Não poupava ninguém, nem a ele. Compadecia-se das misérias humanas, mas não deixava de apontá-las. Mesmo criticado. Era um outsider em seu tempo, dizia o que sentia e pensava. Ainda que o que pensasse fosse impensável para sua época, como a crítica ao racismo. Faceta pouco conhecida dele. Em 2005 fui conhecer a exposição dos 90 anos de Abdias do Nascimento, o criador do Teatro Experimental do Negro. Ali é que vi retratada, em textos contundentes, a indignação de meu pai com o preconceito contra o negro. Não era fácil, nos anos 40 e 50, dizer que havia racismo no Brasil. Tanto que quando ele encenou pela primeira vez "Anjo Negro" lhe sugeriram convidar um ator branco, que seria pintado de preto, em vez de o ator negro que havia convidado, Abdias do Nascimento. E, é claro, sendo ele quem era, manteve o convite a Abdias.

Nelson Rodrigues é o maior autor do moderno teatro brasileiro. Não só porque inovou na forma, na carpintaria teatral, mas porque os dramas que retratou continuam acontecendo todos os dias, são universais. Quem não conhece famílias que são verdadeiros personagens da peça "Álbum de Família"? Ou já não assistiu à destruição moral de alguém como a que é retratada em "Um Beijo no Asfalto"? E a prosa? As crônicas, deliciosas. Nos faz muita falta o Nelson Rodrigues cronista. Ele teria hoje 99 anos. Com a maturidade percebo o quanto herdei dele, sua indignação contra o preconceito, a discriminação, sua independência. Fico emocionada ao lembrar da ternura do meu pai.

* É pesquisadora, doutora em educação. Foi convidada para ser a curadora da exposição que o Itaú Cultural abrigará em maio de 2012, para celebrar o centenário de seu pai, no projeto Ocupação. É responsável também pela produção da mostra multimídia e multisensorial sobre o dramaturgo, que percorrerá as principais capitais do País.

Por Luiz Fernando Vianna - Agência O Globo
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