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Afonso Lacerda viu o tiroteio no Senado e doou sangue ao senador ferido à bala

07 de Dezembro de 2013

Testemunha: “Senado já temia banho de sangue”

Arma empunhada por Arnon entrou no Senado na bolsa de dona Leda para matar Silvestre Péricles, mas acabou acertando o suplente de senador José Kairala

Na quinta-feira, 5 de dezembro de 2013, um dia depois do registro no Almanaque Alagoas dos 50 anos do tiroteio no Senado, que acabou com a morte do senador do Acre José Kairala, uma testemunha ocular deste fato histórico foi localizada por nossa equipe de reportagem para comentar o ocorrido.

Ildelfonso Rebouças Lacerda, 68 anos, mais conhecido em Alagoas como Afonso Lacerda, candidato derrotado a senador nas eleições de 2010, é funcionário aposentado do Senado. Carioca do Rio de Janeiro, ele foi morar no Distrito Federal antes da inauguração de Brasília, no final dos anos 50.

Ainda adolescente, Lacerda começou a prestar serviço no Senado e por lá foi ficando, prestando concursos internos, até se estabilizar como servidor da Casa. Lotado no Departamento Pessoal, no dia 4 de dezembro de 1963, ele estava na tribuna de hora, por curiosidade para assistir a sessão plenária.

“Como funcionário do Senado a gente tinha acesso às galerias, à tribuna de honra e até ao plenário. Naquele dia, depois do almoço, dei uma passada na tribuna de honra para assistir a sessão, quando para minha surpresa aconteceu o tiroteio, no qual o senador Arnon de Melo acabou matando sem querer o senador Kairala”, conta Lacerda.

CLIMA TENSO

Segundo ele, antes do tiroteio, o clima era extremamente tenso. “Pairava no ar um clima tenso e de hostilidade. Parecia que a qualquer momento podia acontece algo muito grave. Tanto é que o presidente Auro Moura Andrade mandou reforçar a segurança temendo um banho de sangue”, acrescenta.

De acordo do Afonso Lacerda, naquela época muitos senadores abusavam do poder de autoridade e andavam armados, principalmente os parlamentares do Nordeste. Por isso, desde o início daquela legislatura havia uma preocupação da Mesa com a possibilidade de confronto entre Arnon e Silvestre.

O presidente Moura Andrade já tinha recomendado aos seguranças da Casa para seguirem os dois senadores nos corredores do Senado com receio que os dois se encontrassem. Outra providência tomada pelo presidente foi mandar Arnon para uma missão no Exterior.

DISCURSO ESPERADO

“Havia um zum-zum-zum na Casa sobre o discurso que Arnon prometera fazer e que vinha adiando desde o início da legislatura. Chegou o fim do ano e ele ainda não tinha falado no plenário, quando resolveu fazer, foi desafiado por Silvestre, perdeu a cabeça e atirou no inimigo”, explica Lacerda.

“No momento dos tiros, disparados por Arnon, todos no plenário se abaixaram. Silvestre se jogou no chão e rolou, com um revólver na mão pronto para revidar. O senador Kairala, que era suplente e não tinha noção do perigo que corria, se manteve sentado, sendo atingido no peito pelos tiros”.

A turma do deixa disso segurou Arnon e Silvestre, que foram presos e retirados do plenário pelos seguranças do Senado. Arnon foi levado para o quartel da Aeronáutica e Silvestre para o QG do Exército. Enquanto Kairala seguia ferido para o Hospital Distrital (atual Hospital de Base) entre a vida e a morte.

SANGUE DOADO

Lacerda conta ainda que logo após o tiroteio, a Mesa Diretora do Senado pediu aos funcionários da Casa que doassem sangue para o senador ferido. “Como eu tinha o mesmo tipo de sangue do senador Kairala (“B” Positivo), fui doar sangue para ele, no Hospital Distrital”, afirma a testemunha.

No dia seguinte, quando voltou ao Senado para trabalhar, Afonso Lacerda ficou sabendo que o senador Kairala havia morrido por volta das oito horas da noite. “Depois daquele dia, passei a nutrir uma simpatia pelo senador Silvestre Péricles e sempre conversava com ele, no Senado”, revelou.

Numa dessas conversas, Silvestre teria revelado a Afonso Lacerda que no dia do tiroteio só não matou Arnon porque não quis. “Ele (Silvestre) disse que ainda deu uns dois tiros para cima. As balas, até hoje, ainda estão cravadas no teto do plenário do Senado”, acrescentou a testemunha.

Para Lacerda, o ódio existente entre Arnon e Silvestre era tanto que a troca de tiros seria inevitável. “O presidente Moura Andrade sabia disso e procurou evitar que eles chegassem às vias de fato em Brasília. Se tivesse de correr algum confronto, que ocorresse em Alagoas, mas acabou ocorrendo no Senado”, lamentou.

BRIGA COM HELOÍSA

Filiado ao PRTB, Afonso Lacerda disputou o Senado em 2010. Ganhou notoriedade ao polemizar com a ex-senadora Heloísa Helena (PSol). Durante a campanha, num debate entre os candidatos ao Senado na Ufal, Heloísa se recusou a apertar a mão de Lacerda e ganhou um Inimigo de graça.

No guia eleitoral, Lacerda não perdoou o gesto indelicado da ex-senadora e atual vereadora por Maceió. Taxado de candidato “laranja” por Heloísa, ele passou a campanha inteira detonando a ex-senadora, acusando-a de fabricar encrenca e de nunca ter trazido recursos para Alagoas.

Derrotado nas urnas para o Senado, Lacerda se candidatou nas eleições de 2012 para a Câmara Municipal de Maceió, mas não conseguiu se eleger vereador. Se fosse eleito, com certeza, seria uma pedra no sapato de Heloísa na Câmara. Sobre as eleições de 2014, diz que ainda não sabe se será candidato.

Lacerda conta que veio morar em Alagoas há 25 anos, logo após ter se aposentado como funcionário do Senado. Filho de mãe potiguar, ele ainda chegou a morar cerca de um ano em Natal (RN), mas ao conhecer Maceió se encantou com a cidade e se mudou para cá, onde constituiu família e vive até hoje.

BATEU, LEVOU

O relato de Afonso Lacerda sobre o tiroteio protagonizado por Arnon de Melo e Silvestre Péricles bate com as informações divulgadas pelos jornais e os bastidores do caso registrados pelo jornalista alagoano Cláudio Humberto Rosa e Silva, no livro “Mil Dias de Solidão – Collor Bateu e Levou”.

O alvo dos tiros disparados por Arnon era mesmo o senador alagoano Silvestre Péricles de Góis Monteiro, ex-governador de Alagoas e inimigo público da família Collor. Ao errar o alvo, o pai do ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB) acabou matando sem querer o suplente José Kairala.

Naquele fatídico dia, Kairala comparecera ao plenário do Senado para seu último dia de trabalho no exercício do mandato, já que o titular da vaga estaria de volta na sessão seguinte. Ferido com dois tiros, Kairala ainda chegou a ser levado com vida para o Hospital Distrital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

Apesar da repercussão nacional do episódio, que virou uma efeméride importante nos anais da história do Brasil, o assunto é tabu para a família Collor, que evita falar sobre o caso e omite o fato da biografia do jornalista Arnon de Melo. A imprensa alagoana também evita divulgar o fatídico episódio.

PARTICIPAÇÃO DE D. LEDA

Historiadores ouvidos sobre o assunto revelaram informações de bastidores que apontam para a cumplicidade de dona Leda, mulher de Arnon e mãe de Collor, no dia do crime. Um livro sobre o assunto está no prelo, mas as editoras se recusam a publicá-lo, segundo o autor da obra José Marques de Melo.

“Não sei se é receio ou falta de interesse”, comentou Marques de Melo, que conta no livro a saga de Arnon e sua família. O professor, que é o primeiro doutor em Comunicação no Brasil, é alagoano de Santana do Ipanema e conhece como ninguém os meandros da imprensa local e nacional.

Para Marques de Melo, Arnon foi um grande jornalista, que “subiu na vida pela escada de Weber”. De acordo com suas pesquisas, Arnon errou o alvo porque tremeu na hora do tiro ao empunhar um revólver calibre 45. Sem querer, terminou acertando o senador José Kairala, cuja família acabou na miséria.

ATESTADO DE ÓBITO

A antropóloga alagoana Luitigarde Barros revelou que uma aluna sua da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ) pesquisou sobre o tiroteio, mas foi aconselhada a não publicar nada sobre o episódio para evitar “problemas”. Essa pesquisadora teria apurado que o atestado de óbito só foi entregue à família do senador morto após Anistia Política, no início dos anos 80.

Como o crime praticado por Arnon aconteceu três meses antes do golpe de 1964, a Ditadura Militar – da qual o pai de Fernando Collor foi um dos principais representantes em Alagoas – tratou de abafar o caso. A imprensa local e nacional, por força do corporativismo, também deu o caso por encerrado, embora ninguém tenha sido punido.

O inquérito policial sobre a morte de Kairala ainda hoje é um mistério. Consta que acabou sendo arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O Senado ainda abriu uma sindicância para apurar o caso, mas nem Arnon, nem Silvestre foram punidos, muito menos perderam o mandato.

Em Alagoas, a rixa entre Arnon e Silvestre era do conhecimento de todos e terminou virando folclore político. Dizem que após a eleição de Arnon, Silvestre se recusou a passar o cargo de governador e só entregou o Palácio dos Martírios ao inimigo com as paredes do salão de despachos manchadas de merda.

ARMA DO CRIME

Na imprensa local e nacional, Silvestre só se referia a Arnon chamando-o de “maricas”. No palanque, durante as campanhas, dizia coisas piores e não economizava nas palavras de calão. Por conta disso, dona Leda – gaúcha de gênio forte—falava para Arnon não aceitar desaforo.

De acordo com Cláudio Humberto, a arma do crime que matou Kairala entrou no plenário do Senado dentro da bolsa de dona Leda. O trecho com essa informação está no segundo capítulo do livro, que tratada da “Dialética do Trabuco”.

Segundo o jornalista e ex-secretário de imprensa de Collor, dez dias antes da posse de Arnon, em entrevista ao jornal O Globo, em 21 de janeiro de 1963, Silvestre revelou que iria impedir o ingresso do inimigo no Senado.

“Jurado de morte pelo desafeto, que, revólver calibre 45 sempre no coldre, ameaçou recebê-lo no plenário à bala, Arnon disse ao Jornal do Brasil da véspera, 30 de janeiro, que tomaria posse a qualquer custo, ‘até com risco de vida’”, escreveu Cláudio Humberto.

“Apesar da tensão, a solenidade de posse foi realizada sem incidentes, porque medidas adicionais de segurança haviam sido tomadas. Inconformado, Silvestre continuava a ameaçar Arnon de morte, prometendo consumar o assassinato se o adversário tivesse a ‘ousadia’ de ocupar a tribuna do senado para fazer discurso”, acrescentou o jornalista alagoano.

Cláudio Humberto afirma ainda que durante boa parte do seu mandato, em seus discursos, Silvestre se referia a Arnon de forma virulenta e com palavras de baixo calão. Para evitar um possível confronto, o presidente do Senado, Moura Andrade, despachou Arnon para participar na Europa da 53ª Conferência Interparlamentar Pró-Governo Mundial, como presidente do Grupo Brasileiro da Associação Parlamentar Mundial.

TRAGÉDIA ANUNCIADA

De volta ao Brasil, segundo Cláudio Humberto, familiares e amigos mantiveram Arnon no Rio de Janeiro, sob os mais diversos pretextos. Até novembro de 1963, quando voltou à Brasília disposto a fazer seu primeiro discurso no Senado, de qualquer maneira:

“O povo não entenderia outra atitude minha” – disse Arnon à família. De fato, marcou a estreia na tribuna do Senado para 4 de dezembro de 1963, uma terça-feira. O dia do tiroteio.

Como relatou Afonso Lacerda, o presidente Moura Andrade fez o que pôde para garantir que Arnon frequentasse o plenário presidido por ele sem o risco de atentado à bala. Chamou o vice-presidente da Casa, o senador alagoano Rui Palmeira (pai do ex-governador Guilherme Palmeira e avô do atual prefeito de Maceió) e pediu ajuda:

“Você conhece bem o temperamento dos dois e as manhas de cada um. Peço-lhe que se junte ao senador Gilberto Marinho, que, por ser oficial do Exército, conhece bem esses problemas de segurança. Tentem evitar uma tragédia”.

DESPUDORADO CANGAÇO

O então presidente do Senado escreveria anos depois, em seu livro “Um Congresso contra o Arbítrio”, publicado pela Nova Fronteira, que depois daquele dia ficou com medo. Temia a transformação do Senado em um cenário “do mais despudorado cangaço”.

Na véspera do crime—conforme escreveu Cláudio Humberto, em seu livro —, Moura Andrade estava envolvido também em outras questões, inclusive menores, mas todas pertinentes ao cargo que exercia. Recebeu, por exemplo, a visita do senador José Kairala, do Acre, que se despedia do Senado: terminara a licença do titular de sua cadeira, o general e senador José Guiomard.

“Homem simples do interior, Kairala exerceu a interinidade com discrição. Jamais discursava ou apresentava projetos, requerimentos. Tentava conquistar a simpatia dos colegas presenteando-os com produtos da sua terra, Brasiléia, de facas do mato a cajus maduro e de bom tamanho, seus preferidos”.

FAMÍLIA KAIRALA

No dia do tiroteio, como era seu último dia de mandato, Kairala levou para Brasília a mãe, a mulher e o filho, Na audiência que pediu ao presidente do Senado, explicou que somente retornaria ao Acre dália dois dias:

– Só no dia 5 de dezembro tem um bom voo para Rio Branco, meu presidente – disse Kairala, segundo escreveu Cláudio Humberto. No final da conversa com Moura Andrade, humilde e desconhecendo seus próprios diretos, Kairala perguntou:

– O senhor permitiria que eu viesse aqui amanhã? O senador José Guiomard não chegará a Brasília no dia 4, presidente, e o senhor sabe como são as coisas, a minha família não conhece o Senado. Eu gostaria que minha mãe, minha mulher e o meu filho guardassem uma lembrança do tempo que fui senador.

“Informado que tinha esse direito, com a ressalva de que não poderia votar nem discursar, Kairala fez um último pedido”, conforme revelou o jornalista alagoano:

– Senador, a minha família pode ficar na tribuna de honra?

– Claro, senador Kairala.

– É que meu filho ganhou uma máquina Kodak dessas modernas, que já vem com flash, e quer tirar um retrato meu sentado no plenário. Se o senhor não se importar, presidente, talvez seu precise mudar de lugar para facilitar a fotografia.

FATÍDICO DIA

“No fatídico dia 4”, relata Cláudio Humberto, “os senadores Rui Palmeira e Gilberto Marinho, e mais o diretor-geral do Senado Evandro Mendes Vianna, tomaram algumas providências numa tentativa de evitar o pior. Espalharam dezenas de guardas de segurança à paisana, entre a assistência e pontos estratégicos do plenário e determinaram a revista de todos os espectadores e dos familiares e amigos dos senadores Arnon de Melo e Silvestre Péricles”.

“Para cada um dos litigantes, foram designados cinco atentes de segurança, armados e instruídos a impedir a consumação da ameaça de tiroteio”.

Rui Palmeira—acrescenta Cláudio Humberto – “endereçou um último apelo a Silvestre e a Arnon para que não levassem armas ao plenário. Arnon chegou a concordar, mas dona Leda rejeitou a ideia”:

– Não há duvida que aquele louco vai estar armado, à sua espera –, advertiu, segundo consta no livro de Cláudio Humberto, que arremata o assunto com outra informação bombástica:

“Mulher de temperamento forte, acompanhou o marido levando o revólver na própria bolsa, na suposição de que Arnon seria revistado. Quando chegaram no estacionamento subterrâneo do Senado, os dois automóveis que conduziam Arnon, familiares e amigos, o revólver caiu da bolsa de dona Leda, ao descer do carro, fazendo ecoar o barulho metálico no chão de cimento liso”.

LEOPOLDO DESARMADO

O jornalista acrescenta ainda “que, apesar do susto e embora carregada, a arma não disparou. Apenas provocou clima adicional de apreensão”. Um amigo da família, José Barbosa de Oliveira, ex-conselheiro do Tribunal de Conta de Alagoas, foi quem, segundo Cláudio Humberto, ajudou a apanhar a arma, colocada, de forma rápida e discreta, na bolsa de dona Leda.

Instruídos pela Mesa Diretora da Casa, os seguranças passaram a revistar todos em volta de Arnon, exceto o próprio senador. Os guardas apreenderam um revólver que estava com o filho mais velho de Arnon, Leopoldo (já falecido), o que provou um pequeno e providencial tumultuo, graças ao qual dona leda conseguiu entrar no Senado com o revolver na bolsa.

Da família Góis Monteiro, outrora poderosa e violenta, conforme escreve Cláudio Humberto, “apenas um genro, capital do Exército, compareceu ao senado – mesmo assim, desarmado”.

O jornalista alagoano escreve ainda que, no dia 4 de dezembro de 1963, Silvestre não atendeu aos apelos do presidente e do vice-presidente da Casa, voltou a ameaçar Arnon e teria comparecido armado à sessão plenária.

– Vou encher de balas a boca de Arnon de Melo, assim que ele começar a falar –, teria declarado à imprensa, assim que chegou ao Senado, para a sessão plenária.

Resultado: por volta das 15 horas, quando Arnon iniciou seu discurso, o pai de Collor optou pela provocação. “Para mostrar que não tinha medo do inimigo, disse rápido como uma rajada de metralhadora”:

– Senhor presidente, permita Vossa Excelência que eu faça o meu discurso olhando na direção do senhor senador Silvestre Péricles de Góis Monteiro, que ameaçou me matar, hoje, ao começar o meu discurso.

“Silvestre levantou-se, com o velho enorme revólver 45 cano longo à mão direita, braço caído para encobrir a arma por trás do corpo. Deu um passo à frente, em direção a Arnon, com o dedo indicador da mão esquerda em riste, e gritou colérico”:

– Crápula!

“Ato contínuo, numa reação própria de autodefesa, Arnon, muito tenso, largou o discurso que pretendia ler e sacou a arma, rápido e trêmulo. Achava que Silvestre fizera o mesmo. Apontou o revólver na direção do inimigo e disparou duas vezes, cheio de ressentimento e medo, com os olhos semicerrados. Os tiros foram tão rápidos que a gravação da sessão fez parecer que se tratou de apenas um disparo e a vibração do eco correspondente. A perícia depois constatou que decorreram apenas exatos três segundos entre o insulto de Silvestre e a reação de Arnon, à bala”.

Os estampidos provocaram pânico. As pessoas se jogaram no chão e depois procuraram desesperadas as portas de saída do plenário, conforme descreve o jornalista no livro “Mil dias de Solidão”, editado pela editora Geração.

Em seguida Cláudio Humberto descreve o infortúnio do senador Kairala que no afã de se posicionar bem no plenário, para ser fotografado por seus familiares, terminou escolhendo a poltrona errada e recebendo os tiros que seriam dirigidos a Silvestre Péricles, que só morreria dez anos depois, no início dos anos 70, de morte morrida.

LIVRO INÉDITO

Leia a seguir um trecho do livro inédito sobre este episódio, escrito pelo professor José Marques de Melo (Prêmio Jabuti 2013), docente fundador da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), hoje ocupando o cargo de diretor titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação:

Arnon de Melo, o jornalista weberiano que governou o Estado de Alagoas nos anos 50

MISSÃO HISTÓRICA

Chegando ao Palácio dos Martírios “conduzido pelos braços do povo”, Arnon de Melo governou de 1951 a 1955. Deixou Alagoas “com um novo perfil”, assim descrito por Valmir Calheiros (2000, p. 6): “um rol de realizações, de decisões pioneiras, de avanços e de investimentos em infraestrutura sem precedentes”.

O próprio governador tinha consciência dessa opção não imediatista, ao enviar mensagem ao legislativo que continha seu plano orçamentário para o último ano da gestão.

“Em consonância com as minhas palavras de candidato, (...) tenho me preocupado com a situação dos humildes e dos pobres.... {garantindo-lhes} melhores condições de existência... (...) Não cuidei, assim, de executar obras suntuárias que brilhassem apenas como fogos de artifício, mas não resolvessem problemas fundamentais. Aos objetivos imediatos, que alimentariam fugazmente a popularidade do Governo, preferi os de prazo longo, que, exigindo maior tempo para concretizar-se, certo a princípio suscitariam dúvidas sobre a capacidade criadora da nossa vitória, mas afinal de contas corresponderiam à nossa responsabilidade e à nossa missão.” (Arnon de Melo, 1954, p. 6)

UM NOVO TEMPO?

Avaliando esse período histórico, o ensaísta Bernardino Araújo Miranda, descreve em História das Alagoas, Maceió, Editora São Bento, 1997:

“Depois, houve a eleição de Arnon Afonso de Melo, jornalista de ideias bastante avançadas para o provinciano ambiente de Alagoas Embora nascesse no município de Rio Largo, sua formação e prática jornalística ocorreram no Rio de Janeiro, então capital do país. Foi em sua administração que houve a inauguração da pioneira rodovia estadual, ligando Maceió a Palmeira dos Índios, com 128 quilômetros de extensão. “ (p. 29)

Élcio de Gusmão Verçosa confirma parcialmente esse diagnostico, em Cultura e Educação nas Alagoas: História, Histórias, livro publicado pela Edufal, em Maceió, 1998:

“Os anos 50 chegam para Alagoas trazendo um clima político saudado por alguns como precursor de um novo tempo. Logo no início da década, a campanha seguida da eleição, contra todas as expectativas, de um jovem político da UDN – Arnon de Melo – para o Governo do Estado (...) seria imediatamente vista sobretudo por alguns setores da pequena classe média alagoana como indicação de que Alagoas já não era mais a mesma, o que levava a esperar por relações políticas civilizadas...”(p. 185) “E de fato, bem ou mal, o progresso viria... (...) Embora não tivesse mudado tanto quanto se esperava, o Estado já não era contudo exatamente o mesmo daquela época. (...) (p. 187) No setor rodoviário, iria finalmente se dar a pavimentação asfáltica das duas primeiras estradas de percurso mais longo... (...) Embora (...) não fossem de tão longo percurso assim, representavam, contudo, uma ampliação significativa da possibilidade de comunicação pelo menos entre regiões...” (p. 189)

A TRAGÉDIA ANUNCIADA

Mas nem tudo transcorreu pacificamente no governo Arnon de Melo. Seu perfil modernizante foi mesclado por traços de truculência política praticada por correligionários sertanejos.

A antropóloga Luitgarde Cavalcante Barros recorda episódios dramáticos vividos por sua família no município de Santana do Ipanema, produzindo feridas abertas por injustiças e perseguições toleradas pelo ocupante do Palácio dos Martírios. Escritor e amigo do governador, Tadeu Rocha, tentou mediar às partes em conflito, enviando-lhe carta datada de 14/09/1951: “Pelas notícias dos jornais e informações de amigos de Maceió e Santana, soube que a velha politicagem de aldeia continua fervendo em nosso Estado. Mas continuo confiando no espírito público e na capacidade administrativa, bem como na habilidade política do Governador, que há de defender os legítimos interesses de Alagoas e o bem-estar de sua população”. (Marques de Melo, 2010, p. 88).

Trata-se, aliás, da encenação daquela “tragédia anunciada” que Douglas Apratto (1995, p. 48) narra com sensibilidade ao reconstituir o impeachment de Muniz Falcão, sucessor de Arnon de Melo no governo de Alagoas. “Quem conhece os costumes da terra bem compreende que os grupos em conflito jamais renunciariam a essa batalha iminente”, pois “o calor com que fervia o caldeirão político alagoano não deixava esperanças para conclusões amenas”.

PASSIONALISMO

A ambiguidade política de Arnon de Melo não escapou à percepção crítica de Mário Sérgio Conti (1999, p. 21-22).

“A campanha de Arnon foi ao mesmo tempo retrógrada e inovadora. Retrógrada porque percorria povoados do interior distribuindo enxadas, facões e pás em troca de votos. (...) E inovadora porque ele se valeu de uma pirotecnia inédita para levar aos eleitores sua plataforma – apaziguar a disputa política, coibir o banditismo e a arbitrariedade. (...) O governo foi o contrário de sua campanha: conservador, sem audácias. (...) ... Arnon de Melo permitiu que o banditismo político campeasse. No governo Silvestre Péricles houve 712 assassinatos políticos. No de Arnon, 861. (...) O governador perdeu sua pátina de liberal ao comprar um dos jornais que lhe fazia oposição, a Gazeta de Alagoas... (...) No final do mandato de Arnon, em 1956, Alagoas estava igual ao que era (...): miserável, sem lei, parada no tempo. Mas o povo tinha mudado.

Arnon de Melo sequer elegeu seu sucessor. Mais grave, ainda, foi a eleição do seu passional adversário Silvestre Péricles de Góis Monteiro, com o qual se reencontra no Senado.

CONFRONTO

Silvestre não se conformou, passando a fazer ameaças a Arnon, episódio que José Nêumane (1992, p. 24), com seu jeito singular de contar histórias políticas, assim reconstituiu:

“Silvestre Péricles nunca aceitou isso". Dono de uma personalidade forte, (...) dizia, então, a quem quisesse ouvir:

- Bom, Alagoas elegeu Arnon de Melo senador. Então, Arnon de Melo será senador. Mas não permitirei que ele use a tribuna do senado para esparramar seu veneno. (...)

A ameaça chegou aos ouvidos do senador recém-eleito. Ele pediu a opinião a um colega {que} deu um conselho (...):

- Você só tem uma alternativa, Arnon. Ou fala ou renuncia a seu mandato.

Arnon de Melo nunca havia usado um revólver. Silvestre Péricles tinha uma pontaria excelente...(...) Era um duelo desigual. Mas Arnon se inscreveu... (...) Foi armado. Na confusão, atirou e acertou no peito do suplente de senador José Kairala ... (...) Kairala morreu. (...) Arnon de Melo foi absolvido do assassinato de Kairala. Cumpriu seu mandato, sendo reeleito e voltando ao senado pela terceira vez, durante o regime autoritário, como senador biônico... ”.

O senador Arnon de Melo dedicou-se a questões energéticas, bem como aos temas de educação, ciência, tecnologia, como ficou documentado no amplo repertório de discursos proferidos em plenário e difundidos para seus correligionários através de opúsculos que brotaram da gráfica do próprio Senado, em Brasília, ou da sua empresa midiática, em Alagoas.

SUCESSÃO TRAUMÁTICA

Consciente do fim da carreira política, o senador começou a planejar a sucessão. Sua preferência recaia sobre o filho mais velho, que mais tarde revelou inapetência política, mas esbarrou na resistência de sua mulher. Leda Collor reivindicava o posto.

Quem tornou pública essa rusga familiar foi o filho caçula, Pedro Collor de Melo (1993, p. 45):

“Aproximavam-se as eleições desse ano, 74, e minha mãe resolveu entrar para a política. (...) D. Leda sentiu que o velho Arnon na verdade preferia que o filho mais velho fosse o candidato. (...) Ela, no entanto, insistiu e candidatou-se pela Arena a deputada federal. A derrota foi fragorosa. (...) D. Leda nunca perdoou o marido pela derrota... (...) A relação dos dois ficou péssima e acabou rendendo até um rompimento de meu pai com o então Governador Divaldo Suruagy. (...) Este último voltaria às boas nas eleições seguintes...”

José Nêumane Pinto (1992, p. 36), revolvendo a lama que causou uma “tragédia brasileira”, apurou os fatos:

“À época, muito doente, o senador Arnon de Melo, que falava com dificuldade e mais se arrastava do que andava, procurou o jovem governador Divaldo Suruagy e lhe pediu uma audiência. (...) No encontro, Arnon de Melo lhe disse que não dispunha de muito mais tempo. E estava disposto a passar o bastão do comando político do clã para um descendente. Dos 5 filhos (...) Fernando queria fazer política. Arnon não tinha condições físicas de orientá-lo. Por isso, o velho senador pediu que o governador cumprisse seu papel de pai para encaminhar o filho escolhido”.

EM TEMPO

Sobre a disputa com Silvestre Péricles, o professor José Marques recomenda ainda a leitura do verbete dedicado a Arnon de Melo no livro “História do Pensamento Comunicacional Alagoano” (Maceió, Edufal, 2013, p. 203-205).

Ricardo Rodrigues

Repórter

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Na quinta-feira, 5 de dezembro de 2013, um dia depois do registro no Almanaque Alagoas dos 50 anos do tiroteio no Senado, que acabou com a morte do senador do Acre José Kairala, uma testemunha ocular deste fato histórico foi localizada por nossa equipe de reportagem para comentar o ocorrido.

Ildelfonso Rebouças Lacerda, 68 anos, mais conhecido em Alagoas como Afonso Lacerda, candidato derrotado a senador nas eleições de 2010, é funcionário aposentado do Senado. Carioca do Rio de Janeiro, ele foi morar no Distrito Federal antes da inauguração de Brasília, no final dos anos 50.

Ainda adolescente, Lacerda começou a prestar serviço no Senado e por lá foi ficando, prestando concursos internos, até se estabilizar como servidor da Casa. Lotado no Departamento Pessoa, no dia 4 de dezembro de 1963, ele estava na tribuna de hora, por curiosidade para assistir a sessão plenária.

“Como funcionário do Senado a gente tinha acesso às galerias, à tribuna de honra e até ao plenário. Naquele dia, depois do almoço, dei uma passada na tribuna de honra para assistir a sessão, quando para minha surpresa aconteceu o tiroteio, no qual o senador Arnon de Mello acabou matando sem querer o senador Kairala”, conta Lacerda.

CLIMA TENSO

Segundo ele, antes do tiroteio, o clima era extremamente tenso. “Pairava no ar um clima tenso e de hostilidade. Parecia que a qualquer momento podia acontece algo muito grave. Tanto é que o presidente Auro Moura Andrade mandou reforçar a segurança temendo um banho de sangue”, acrescenta.

De acordo do Afonso Lacerda, naquela época muitos senadores abusavam do poder de autoridade e andavam armados, principalmente os parlamentares do Nordeste. Por isso, desde o início daquela legislatura havia uma preocupação da Mesa com a possibilidade de confronto entre Arnon e Silvestre.

O presidente Moura Andrade já tinha recomendado aos seguranças da Casa para seguirem os dois senadores nos corredores do Senado com receio que os dois se encontrassem. Outra providência tomada pelo presidente foi mandar Arnon para uma missão no Exterior.

DISCURSO ESPERADO

“Havia um zum-zum-zum na Casa sobre o discurso que Arnon prometera fazer e que vinha adiando desde o início da legislatura. Chegou o fim do ano e ele ainda não tinha falado no plenário, quando resolveu fazer, foi desafiado por Silvestre, perdeu a cabeça e atirou no inimigo”, explica Lacerda.

“No momento dos tiros, disparados por Arnon, todos no plenário se abaixaram. Silvestre se jogou no chão e rolou, com um revólver na mão pronto para revidar. O senador Kairala, que era suplente e não tinha noção do perigo que corria, se manteve sentado, sendo atingido no peito pelos tiros”.

A turma do deixa disso segurou Arnon e Silvestre, que foram presos e retirados do plenário pelos seguranças do Senado. Arnon foi levado para o quartel da Aeronáutica e Silvestre para o QG do Exército. Enquanto Kairala seguia ferido para o Hospital Distrital (atual Hospital de Base) entre a vida e a morte.

SANGUE DOADO

Lacerda conta ainda que logo após o tiroteio, a Mesa Diretora do Senado pediu aos funcionários da Casa que doassem sangue para o senador ferido. “Como eu tinha o mesmo tipo de sangue do senador Kairala (“B” Positivo), fui doar sangue para ele, no Hospital Distrital”, afirma a testemunha.

No dia seguinte, quando voltou ao Senado para trabalhar, Afonso Lacerda ficou sabendo que o senador Kairala havia morrido por volta das oito horas da noite. “Depois daquele dia, passei a nutrir uma simpatia pelo senador Silvestre Péricles e sempre conversava com ele, no Senado”, revelou.

Numa dessas conversas, Silvestre teria revelado a Afonso Lacerda que no dia do tiroteio só não matou Arnon porque não quis. “Ele (Silvestre) disse que ainda deu uns dois tiros para cima. As balas, até hoje, ainda estão cravadas no teto do plenário do Senado”, acrescentou a testemunha.

Para Lacerda, o ódio existente entre Arnon e Silvestre era tanto que a troca de tiros seria inevitável. “O presidente Moura Andrade sabia disso e procurou evitar que eles chegassem às vias de fato em Brasília. Se tivesse de correr algum confronto, que ocorresse em Alagoas, mas acabou ocorrendo no Senado”, lamentou.

BRIGA COM HELOÍSA

Filiado ao PRTB, Afonso Lacerda disputou o Senado em 2010. Ganhou notoriedade ao polemizar com a ex-senadora Heloisa Helena (PSol). Durante a campanha, num debate entre os candidatos ao Senado na Ufal, Heloisa se recusou a apertar a mão de Lacerda e ganhou um Inimigo de graça.

No guia eleitoral, Lacerda não perdoou o gesto indelicado da ex-senadora e atual vereadora por Maceió. Taxado de candidato “laranja” por Heloisa, ele passou a campanha inteira detonando a ex-senadora, acusando-a de fabricar encrenca e de nunca ter trazido recursos para Alagoas.

Derrotado nas urnas para o Senado, Lacerda se candidatou nas eleições de 2012 para a Câmara Municipal de Maceió, mas não conseguiu se eleger vereador. Se fosse eleito, com certeza, seria uma pedra no sapato de Heloísa na Câmara. Sobre as eleições de 2014, diz que ainda não sabe se será candidato.

Lacerda conta que veio morar em Alagoas há 25 anos, logo após ter se aposentado como funcionário do Senado. Filho de mãe potiguar, ele ainda chegou a morar cerca de um ano em Natal (RN), mas ao conhecer Maceió se encantou com a cidade e se mudou para cá, onde constituiu família e vive até hoje.

BATEU, LEVOU

O relato de Afonso Lacerda sobre o tiroteio protagonizado por Arnon de Melo e Silvestre Péricles bate com as informações divulgadas pelos jornais e os bastidores do caso registrados pelo jornalista alagoano Cláudio Humberto Rosa e Silva, no livro “Mil Dias de Solidão – Collor Bateu e Levou”.

O alvo dos tiros disparados por Arnon era mesmo o senador alagoano Silvestre Péricles de Góis Monteiro, ex-governador de Alagoas e inimigo público da família Collor. Ao errar o alvo, o pai do ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB) acabou matando sem querer o suplente José Kairala.

Naquele fatídico dia, Kairala comparecera ao plenário do Senado para seu último dia de trabalho no exercício do mandato, já que o titular da vaga estaria de volta na sessão seguinte. Ferido com dois tiros, Kairala ainda chegou a ser levado com vida para o Hospital Distrital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

Apesar da repercussão nacional do episódio, que virou uma efeméride importante nos anais da história do Brasil, o assunto é tabu para a família Collor, que evita falar sobre o caso e omite o fato da biografia do jornalista Arnon de Melo. A imprensa alagoana também evita divulgar o fatídico episódio.

PARTICIPAÇÃO DE D. LEDA

Historiadores ouvidos sobre o assunto revelaram informações de bastidores que apontam para a cumplicidade de dona Leda, mulher de Arnon e mãe de Collor, no dia do crime. Um livro sobre o assunto está no prelo, mas as editoras se recusam a publicá-lo, segundo o autor da obra José Marques de Melo.

“Não sei se é receio ou falta de interesse”, comentou Marques de Melo, que conta no livro a saga de Arnon e sua família. O professor, que é o primeiro doutor em Comunicação no Brasil, é alagoano de Santana do Ipanema e conhece como ninguém os meandros da imprensa local e nacional.

Para Marques de Melo, Arnon foi um grande jornalista, que “subiu na vida pela escada de Weber”. De acordo com suas pesquisas, Arnon errou o alvo porque tremeu na hora do tiro ao empunhar um revólver calibre 45. Sem querer, terminou acertando o senador José Kairala, cuja família acabou na miséria.

ATESTADO DE ÓBITO

A antropóloga alagoana Luitigard Barros revelou que uma aluna sua da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ) pesquisou sobre o tiroteio, mas foi aconselhada a não publicar nada sobre o episódio para evitar “problemas”. Essa pesquisadora teria apurado que o atestado de óbito só foi entregue à família do senador morto após Anistia Política, no início dos anos 80.

Como o crime praticado por Arnon aconteceu três meses antes do golpe de 1964, a Ditadura Militar – da qual o pai de Fernando Collor foi um dos principais representantes em Alagoas – tratou de abafar o caso. A imprensa local e nacional, por força do corporativismo, também deu o caso por encerrado, embora ninguém tenha sido punido.

O inquérito policial sobre a morte de Kairala ainda hoje é um mistério. Consta que acabou sendo arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O Senado ainda abriu uma sindicância para apurar o caso, mas nem Arnon, nem Silvestre foram punidos, muito menos perderam o mandato.

Em Alagoas, a rixa entre Arnon e Silvestre era do conhecimento de todos e terminou virando folclore político. Dizem que após a eleição de Arnon, Silvestre se recusou a passar o cargo de governador e só entregou o Palácio dos Martírios ao inimigo com as paredes do salão de despachos manchadas de merda.

ARMA DO CRIME

Na imprensa local e nacional, Silvestre só se referia a Arnon chamando-o de “maricas”. No palanque, durante as campanhas, dizia coisas piores e não economizava nas palavras de calão. Por conta disso, dona Leda – gaúcha de gênio forte - falava para Arnon não aceitar desaforo.

De acordo com Claudio Humberto, a arma do crime que matou Kairala entrou no plenário do Senado dentro da bolsa de dona Leda. O trecho com essa informação está no segundo capítulo do livro, que tratada da “Dialética do Trabuco”.

Segundo o jornalista e ex-secretário de imprensa de Collor, dez dias antes da posse de Arnon, em entrevista ao jornal O Globo, em 21 de janeiro de 1963, Silvestre revelou que iria impedir o ingresso do inimigo no Senado.

“Jurado de morte pelo desafeto, que, revólver calibre 45 sempre no coldre, ameaçou recebê-lo no plenário à bala, Arnon disse ao Jornal do Brasil da véspera, 30 de janeiro, que tomaria posse a qualquer custo, ‘até com risco de vida’”, escreveu Claudio Humberto.

“Apesar da tensão, a solenidade de posse foi realizada sem incidentes, porque medidas adicionais de segurança haviam sido tomadas. Inconformado, Silvestre continuava a ameaçar Arnon de morte, prometendo consumar o assassinato se o adversário tivesse a ‘ousadia’ de ocupar a tribuna do senado para fazer discurso”, acrescentou o jornalista alagoano.

Cláudio Humberto afirma ainda que durante boa parte do seu mandato, em seus discursos, Silvestre se refria a Arnon de forma virulenta e com palavras de baixo calão. Para evitar um possível confronto, o presidente do Senado, Moura Andrade, despachou Arnon para participar na Europa da 53ª Conferência Interparlamentar Pró-Governo Mundial, como presidente do Grupo Brasileiro da Associação Parlamentar Mundial.

TRAGÉDIA ANUNCIADA

De volta ao Brasil, segundo Cláudio Humberto, familiares e amigos mantiveram Arnon no Rio de Janeiro, sob os mais diversos pretextos. Até novembro de 1963, quando voltou à Brasília disposto a fazer seu primeiro discurso no Senado, de qualquer maneira:

“O povo não entenderia outra atitude minha” – disse Arnon à família. De fato, marcou a estreia na tribuna do Senado para 4 de dezembro de 1963, uma terça-feira. O dia do tiroteio.

Como relatou Afonso Lacerda, o presidente Moura Andrade fez o que pôde para garantir que Arnon frequentasse o plenário presidido por ele sem o risco de atentado á bala. Chamou o vice-presidente da Casa, o senador alagoano Rui Palmeira (pai do ex-governador Guilherme Palmeira e avô do atual prefeito de Maceió) e pediu ajuda:

“Você conhece bem o temperamento dos dois e as manhas de cada um. Peço-lhe que se junte ao senador Gilberto Marinho, que, por ser oficial do Exército, conhece bem esses problemas de segurança. Tentem evitar uma tragédia”.

DESPUDORADO CANGAÇO

O então presidente do Senado escreveria anos depois, em seu livro “Um Congresso contra o Arbítrio”, publicado pela Nova Fronteira, que depois daquele dia ficou com medo. Temia a transformação do Senado em um cenário “do mais despudorado cangaço”.

Na véspera do crime - conforme escreveu Claudio Humberto, em seu livro -, Moura Andrade estava envolvido também em outras questões, inclusive menores, mas todas pertinentes ao cargo que exercia. Recebeu, por exemplo, a visita do senador José Kairala, do Acre, que se despedia do Senado: terminara a licença do titular de sua cadeira, o general e senador José Guiomard.

“Homem simples do interior, Kairala exerceu a interinidade com discrição. Jamais discursava ou apresentava projetos, requerimentos. Tentava conquistar a simpatia dos colegas presenteando-os com produtos da sua terra, Brasiléia, de facas do mato a cajus maduro e de bom tamanho, seus preferidos”.

FAMÍLIA KAIRALA

No dia do tiroteio, como era seu último dia de mandato, Kairala levou para Brasília a mãe, a mulher e o filho, Na audiência que pediu ao presidente do Senado, explicou que somente retornaria ao Acre dália dois dias:

– Só no dia 5 de dezembro tem um bom voo para Rio Branco, meu presidente – disse Kairala, segundo escreveu Cláudio Humberto. No final da conversa com Moura Andrade, humilde e desconhecendo seus próprios diretos, Kairala perguntou:

– O senhor permitiria que eu viesse aqui amanhã? O senador José Guiomard não chegará a Brasília no dia 4, presidente, e o senhor sabe como são as coisas, a minha família não conhece o Senado,. Eu gostaria que minha mãe, minha mulher e o meu filho guardassem uma lembrança do tempo que fui senador.

“Informado que tinha esse direito, com a ressalva de que não poderia votar nem discursar, Kairala fez um último pedido”, conforme revelou o jornalista alagoano:

– Senador, a minha família pode ficar na tribuna de honra?

– Claro, senador Kairala.

– É que meu filho ganhou uma máquina Kodak dessas modernas, que já vem com flash, e quer tirar um retrado meu sentado no plenário. Se o senhor não se importar, presidente, talvez seu precise mudar de lugar para facilitar a fotografia.

FATÍDICO DIA

“No fatídico dia 4”, relata Cláudio Humberto, “os senadores Rui Palmeira e Gilberto Marinho, e mais o diretor-geral do Senado Evandro Mendes Vianna, tomaram algumas providências numa tentativa de evitar o pior. Espalharam dezenas de guardas de segurança à paisana, entre a assistência e pontos estratégicos do plenário e determinaram a revista de todos os espectadores e dos familiares e amigos dos senadores Arnon de Melo e Silvestre Péricles”.

“Para cada um dos litigantes, foram designados cinco atentes de segurança, armados e instruídos a impedir a consumação da ameaça de tiroteio”.

Rui Palmeira - acrescenta Cláudio Humberto – “endereçou um último apelo a Silvestre e a Arnon para que não levassem armas ao plenário. Arnon chegou a concordar, mas dona Leda rejeitou a ideia”:

– Não há duvida que aquele louco vai estar armado, à sua espera –, advertiu, segundo consta no livro de Claudio Humberto, que arremata o assunto com outra informação bombástica:

“Mulher de temperamento forte, acompanhou o marido levando o revólver na própria bolsa, na suposição de que Arnon seria revistado. Quando chegaram no estacionamento subterrâneo do Senado, os dois automóveis que conduziam Arnon, familiares e amigos, o revólver caiu da bolsa de dona Leda, ao descer do carro, fazendo ecoar o barulho metálico no chão de cimento liso”.

LEOPOLDO DESARMADO

O jornalista acrescenta ainda “que, apesar do susto e embora carregada, a arma não disparou. Apenas provocou clima adicional de apreensão”. Um amigo da família, José Barbosa de Oliveira, ex-conselheiro do Tribunal de Conta de Alagoas, foi quem, segundo Claudio Humberto, ajudou a apanhar a arma, colocada, de forma rápida e discreta, na bolsa de dona Leda.

Instruídos pela Mesa Diretora da Casa, os seguranças passaram a revistar todos em volta de Arnon, exceto o próprio senador. Os guardas apreenderam um revólver que estava com o filho mais velho de Arnon, Leopoldo (já falecido), o que provou um pequeno e providencial tumultuo, graças ao qual dona leda conseguiu entrar no Senado com o revolver na bolsa.

Da família Góis Monteiro, outrora poderosa e violenta, conforme escreve Claudio Humberto, “apenas um genro, capital do Exército, compareceu ao senado – mesmo assim, desarmado”.

O jornalista alagoano escreve ainda que, no dia 4 de dezembro de 1963, Silvestre não atendeu aos apelos do presidente e do vice-presidente da Casa, voltou a ameaçar Arnon e teria comparecido armado à sessão plenária.

– Vou encher de balas a boca de Arnon de Mello, assim que ele começar a falar –, teria declarado à imprensa, assim que chegou ao Senado, para a sessão plenária.

Resultado: por volta das 15 horas, quando Arnon iniciou seu discurso, o pai de Collor optou pela provocação. “Para mostrar que não tinha medo do inimigo, disse rápido como uma rajada de metralhadora”:

– Senhor presidente, permita Vossa Excelência que eu faça o meu discurso olhando na direção do senhor senador Silvestre Péricles de Góis Monteiro, que ameaçou me matar, hoje, ao começar o meu discurso.

“Silvestre levantou-se, com o velho enorme revólver 45 cano longo à mão direita, braço caído para encobrir a arma por trás do corpo. Deu um passo á frente, em direção a Arnon, com o dedo indicador da mão esquerda em riste, e gritou colérico”:

– Crápula!

“Ato contínuo, numa reação própria de autodefesa, Arnon, muito tenso, largou o discurso que pretendia ler e sacou a arma, rápido e trêmulo. Achava que Silvestre fizera o mesmo. Apontou o revólver na direção do inimigo e disparou duas vezes, cheio de ressentimento e medo, com os olhos semicerrados. Os tiros foram tão rápidos que a gravação da sessão fez parecer que se tratou de apenas um disparo e a vibração do eco correspondente. A perícia depois constatou que decorreram apenas exatos três segundos entre o insulto de Silvestre e a reação de Arnon, à bala”.

Os estampidos provocaram pânico. As pessoas se jogaram no chão e depois procuraram desesperadas as portas de saída do plenário, conforme descreve o jornalista no livro “Mil dias de Solidão”, editado pela editora Geração.

Em seguida Cláudio Humberto descreve o infortúnio do senador Kairala que no afã de se posicionar bem no plenário, para ser fotografado por seus familiares, terminou escolhendo a poltrona errada e recebendo os tiros que seriam dirigidos a Silvestre Péricles, que só morreria dez anos depois, no início dos anos 70, de morte morrida.

LIVRO INÉDITO

Leia a seguir um trecho do livro inédito sobre este episódio, escrito pelo professor José Marques de Melo (Prêmio Jabuti 2013), docente-fundador da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), hoje ocupando o cargo de diretor titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação:

Arnon de Mello, o jornalista weberiano que governou o Estado de Alagoas nos anos 50

MISSÃO HISTÓRICA

Chegando ao Palácio dos Martírios “conduzido pelos braços do povo”, Arnon de Mello governou de 1951 a 1955. Deixou Alagoas “com um novo perfil”, assim descrito por Valmir Calheiros (2000, p. 6): “um rol de realizações, de decisões pioneiras, de avanços e de investimentos em infraestrutura sem precedentes”.

O próprio governador tinha consciência dessa opção não imediatista, ao enviar mensagem ao legislativo que continha seu plano orçamentário para o último ano da gestão.

“Em consonância com as minhas palavras de candidato, (...) tenho me preocupado com a situação dos humildes e dos pobres.... {garantindo-lhes} melhores condições de existência... (...) Não cuidei, assim, de executar obras suntuárias que brilhassem apenas como fogos de artifício, mas não resolvessem problemas fundamentais. Aos objetivos imediatos, que alimentariam fugazmente a popularidade do Governo, preferi os de prazo longo, que, exigindo maior tempo para concretizar-se, certo a princípio suscitariam dúvidas sobre a capacidade criadora da nossa vitória, mas afinal de contas corresponderiam à nossa responsabilidade e à nossa missão.” (Arnon de Melo, 1954, p. 6)

UM NOVO TEMPO?

Avaliando esse período histórico, o ensaísta Bernardino Araújo Miranda, descreve em História das Alagoas, Maceió, Editora São Bento, 1997:

“Depois, houve a eleição de Arnon Afonso de Mello, jornalista de ideias bastante avançadas para o provinciano ambiente de Alagoas Embora nascesse no município de Rio Largo, sua formação e prática jornalística ocorreram no Rio de Janeiro, então capital do país. Foi em sua administração que houve a inauguração da pioneira rodovia estadual, ligando Maceió a Palmeira dos Índios, com 128 quilômetros de extensão. “ (p. 29)

Elcio de Gusmão Verçosa confirma parcialmente esse diagnostico, em Cultura e Educação nas Alagoas: História, Histórias, livro publicado pela Edufal, em Maceió, 1998:

“Os anos 50 chegam para Alagoas trazendo um clima político saudado por alguns como precursor de um novo tempo. Logo no início da década, a campanha seguida da eleição, contra todas as expectativas, de um jovem político da UDN – Arnon de Mello – para o Governo do Estado (...) seria imediatamente vista sobretudo por alguns setores da pequena classe média alagoana como indicação de que Alagoas já não era mais a mesma, o que levava a esperar por relações políticas civilizadas...”(p. 185) “E de fato, bem ou mal, o progresso viria... (...) Embora não tivesse mudado tanto quanto se esperava, o Estado já não era contudo exatamente o mesmo daquela época. (...) (p. 187) No setor rodoviário, iria finalmente se dar a pavimentação asfáltica das duas primeiras estradas de percurso mais longo... (...) Embora (...) não fossem de tão longo percurso assim, representavam, contudo, uma ampliação significativa da possibilidade de comunicação pelo menos entre regiões...” (p. 189)

A TRAGÉDIA ANUNCIADA

Mas nem tudo transcorreu pacificamente no governo Arnon de Mello. Seu perfil modernizante foi mesclado por traços de truculência política praticada por correligionários sertanejos.

A antropóloga Luitgarde Cavalcante Barros recorda episódios dramáticos vividos por sua família no município de Santana do Ipanema, produzindo feridas abertas por injustiças e perseguições toleradas pelo ocupante do Palácio dos Martírios. Escritor e amigo do governador, Tadeu Rocha, tentou mediar às partes em conflito, enviando-lhe carta datada de 14/09/1951: “Pelas notícias dos jornais e informações de amigos de Maceió e Santana, soube que a velha politicagem de aldeia continua fervendo em nosso Estado. Mas continuo confiando no espírito público e na capacidade administrativa, bem como na habilidade política do Governador, que há de defender os legítimos interesses de Alagoas e o bem estar de sua população”. (Marques de Melo, 2010, p. 88).

Trata-se, aliás, da encenação daquela “tragédia anunciada” que Douglas Apratto (1995, p. 48) narra com sensibilidade ao reconstituir o impeachment de Muniz Falcão, sucessor de Arnon de Mello no governo de Alagoas. “Quem conhece os costumes da terra bem compreende que os grupos em conflito jamais renunciariam a essa batalha iminente”, pois “o calor com que fervia o caldeirão político alagoano não deixava esperanças para conclusões amenas”.

PASSIONALISMO

A ambiguidade política de Arnon de Mello não escapou à percepção crítica de Mário Sérgio Conti (1999, p. 21-22).

“A campanha de Arnon foi ao mesmo tempo retrógrada e inovadora. Retrógrada porque percorria povoados do interior distribuindo enxadas, facões e pás em troca de votos. (...) E inovadora porque ele se valeu de uma pirotecnia inédita para levar aos eleitores sua plataforma – apaziguar a disputa política, coibir o banditismo e a arbitrariedade. (...) O governo foi o contrário de sua campanha: conservador, sem audácias. (...) ... Arnon de Mello permitiu que o banditismo político campeasse. No governo Silvestre Péricles houve 712 assassinatos políticos. No de Arnon, 861. (...) O governador perdeu sua pátina de liberal ao comprar um dos jornais que lhe fazia oposição, a Gazeta de Alagoas... (...) No final do mandato de Arnon, em 1956, Alagoas estava igual ao que era (...): miserável, sem lei, parada no tempo. Mas o povo tinha mudado.

Arnon de Melo sequer elegeu seu sucessor. Mais grave, ainda, foi a eleição do seu passional adversário Silvestre Péricles de Góis Monteiro, com o qual se reencontra no Senado.

CONFRONTO

Silvestre não se conformou, passando a fazer ameaças a Arnon, episódio que José Nêumane (1992, p. 24), com seu jeito singular de contar histórias políticas, assim reconstituiu:

“Silvestre Péricles nunca aceitou isso". Dono de uma personalidade forte, (...) dizia, então, a quem quisesse ouvir:

- Bom, Alagoas elegeu Arnon de Mello senador. Então, Arnon de Mello será senador. Mas não permitirei que ele use a tribuna do senado para esparramar seu veneno. (...)

A ameaça chegou aos ouvidos do senador recém-eleito. Ele pediu a opinião a um colega {que} deu um conselho (...):

- Você só tem uma alternativa, Arnon. Ou fala ou renuncia a seu mandato.

Arnon de Mello nunca havia usado um revólver. Silvestre Péricles tinha uma pontaria excelente...(...) Era um duelo desigual. Mas Arnon se inscreveu... (...) Foi armado. Na confusão, atirou e acertou no peito do suplente de senador José Kairala ... (...) Kairala morreu. (...) Arnon de Mello foi absolvido do assassinato de Kairala. Cumpriu seu mandato, sendo reeleito e voltando ao senado pela terceira vez, durante o regime autoritário, como senador biônico... ”.

O senador Arnon de Mello dedicou-se a questões energéticas, bem como aos temas de educação, ciência, tecnologia, como ficou documentado no amplo repertório de discursos proferidos em plenário e difundidos para seus correligionários através de opúsculos que brotaram da gráfica do próprio Senado, em Brasília, ou da sua empresa midiática, em Alagoas.

SUCESSÃO TRAUMÁTICA

Consciente do fim da carreira política, o senador começou a planejar a sucessão. Sua preferência recaia sobre o filho mais velho, que mais tarde revelou inapetência política, mas esbarrou na resistência de sua mulher. Leda Collor reivindicava o posto.

Quem tornou pública essa rusga familiar foi o filho caçula, Pedro Collor de Mello (1993, p. 45):

“Aproximavam-se as eleições desse ano, 74, e minha mãe resolveu entrar para a política. (...) D. Leda sentiu que o velho Arnon na verdade preferia que o filho mais velho fosse o candidato. (...) Ela, no entanto, insistiu e candidatou-se pela Arena a deputada federal. A derrota foi fragorosa. (...) D. Leda nunca perdoou o marido pela derrota... (...) A relação dos dois ficou péssima e acabou rendendo até um rompimento de meu pai com o então Governador Divaldo Suruagy. (...) Este último voltaria às boas nas eleições seguintes...”

José Nêumane Pinto (1992, p. 36), revolvendo a lama que causou uma “tragédia brasileira”, apurou os fatos:

“À época, muito doente, o senador Arnon de Mello, que falava com dificuldade e mais se arrastava do que andava, procurou o jovem governador Divaldo Suruagy e lhe pediu uma audiência. (...) No encontro, Arnon de Mello lhe disse que não dispunha de muito mais tempo. E estava disposto a passar o bastão do comando político do clã para um descendente. Dos 5 filhos (...) Fernando queria fazer política. Arnon não tinha condições físicas de orientá-lo. Por isso, o velho senador pediu que o governador cumprisse seu papel de pai para encaminhar o filho escolhido”.

EM TEMPO

Sobre a disputa com Silvestre Péricles, o professor José Marques recomenda ainda a leitura do verbete dedicado a Arnon de Mello no livro “História do Pensamento Comunicacional Alagoano” (Maceió, Edufal, 2013, p. 203-205).

Ricardo Rodrigues
Repórter

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Comentários

Bruno Garcia dos Santos

02 de Julho de 2015

Bela matéria. Já não se faz mais reportagem como esta na imprensa brasileira. Parabéns!

Ricardo Alexandre

06 de Janeiro de 2014

Grande Ricardão, parabéns pela matérias!! Só uma correção: José Marques de Melo é meu conterrâneo de PALMEIRA DOS ÍNDIOS! Não de Santana do Ipanema.

Fabiano
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